Por
José Lemos
Doutor e Pós-Doutor em Economia Rural e Ambiental pela University of Califórnia, Riverside, USA.
Professor Associado na Universidade Federal do Ceará.
lemos@ufc.br.
O último artigo de Leonardo Boff, que o Jornal “O Povo” de Fortaleza reproduz às sextas-feiras, cujo titulo instigante era “Quanto custa um pôr do sol?”, serve para refletir mais ainda acerca do mundo em que vivemos, e sobre a sociedade que construímos. A pergunta, segundo Boff, teria sido feita por um filho que foi convidado pelo pai americano, muito rico, para assistir a um pôr de sol nas Colinas de Castelgandolfo, em Roma.
Vivemos num mundo em que quase tudo se tornou mercantilizado. Até as relações pessoais passaram a ter a conotação de negócios rentáveis. Muitas pessoas, ao decidirem partilhar vida com outro(a), antes de qualquer decisão mais açodada ancorada em paixões e amores, fazem as contas dos bens materiais possuídos por cada parceiro e o que poderão amealhar quando estiverem juntos. Assim, fica assegurado previamente, que, havendo o provável desenlace no relacionamento, a partilha de bens já está garantida, independentemente dos estragos que a separação possa provocar nas emoções e nos sentimentos de ambos.
Há pessoas que passam todo o seu tempo arquitetando como agregar mais poder e mais riqueza ao seu patrimônio. Para atingir esses objetivos, não vislumbram limites éticos ou de qualquer ordem. Todos os meios justificam os fins, que são os incrementos de mais poder e mais riqueza. Para tanto, são capazes de caluniar desafetos, de bajular, e de estar sempre perto de quem detém poder, para tirar algum proveito. Impregnam-se como parasitas sugadoras na fonte poderosa da ocasião, fazem tudo para agradá-la, para, a partir desses mimos, conseguirem os seus próprios objetivos que são ter mais riqueza e, claro, acesso ao poder. Por essas vias constroem impérios e hostilizam aqueles que não pactuam dos seus métodos, ou que interpuserem-se nos projetos pessoais de grandeza ilimitada.
A propósito, no Relatório de 1994 da Organização das Nações Unidas (ONU), encontramos seguinte passagem: “a acumulação de riqueza não é necessária para o preenchimento de algumas das escolhas do ser humano... Os indivíduos e a sociedade fazem muitas escolhas que não precisam da riqueza para concretizá-las. Uma sociedade não precisa ser rica para estar habilitada a um vida democrática. Uma família não precisa ser rica para respeitar os direitos de cada um dos seus membros. Uma Nação não precisa ser rica para tratar homens e mulheres de forma eqüitativa. Tradições sociais e culturais, de grande valor, podem ser mantidas, e efetivamente o são, em todos os níveis de renda. A riqueza de uma cultura pode ser independente da riqueza material do seu povo.”
No livro, “O Ponto de Mutação”, Capra assegura que a busca incessante da riqueza induz as pessoas a extrapolarem princípios éticos e a solaparem direitos alheios. A riqueza representa uma maior capacidade de consumo e de manipulação de todos os ativos, inclusive os morais. A obsessão de poder e de ter faz as pessoas acreditarem que estão acima das leis e dos fundamentos da convivência social. Cultuam a personalidade, chegam a imaginar que podem estender esse culto para além desta vida. Pessoas que tem o poder e a riqueza como projetos de vida, em geral, não definem limites para as suas megalomanias.
A sociedade de consumo contribui para isso ao reverenciar o ter e ao negligenciar o ser. São de menos importância a posse do conhecimento cientifico, a sabedoria popular, a contemplação de belezas naturais, o canto livre dos pássaros, a simplicidade do aroma da chuva agindo como “alcoviteira” para que a terra possa ser penetrada, fecundada, emprenhada e parir rebentos. Não é reconhecida, porque não rende dinheiro, a convivência respeitosa com animais e plantas. Destruí-los e fazer lucro com eles é mais interessante. É ultrapassado ter alguém para amar, partilhar angústias e alegrias, movido apenas pelo sentimento do companheirismo e não das posses materiais. Mas estes são prazeres que a busca obsessiva da riqueza material e do poder destroem. Ricos e poderosos não têm tempo para usufruir a riqueza amealhada. Agregam fortunas, poder, morrem e deixam herdeiros engalfinhando-se pelo espólio que acumularam em vida, quase sempre, à custa de muito sofrimento e dor de terceiros. Mas impõem com o dinheiro, ferro e sangue alheios os seus nomes em ruas, fachadas de prédios públicos, avenidas, praças e em mausoléus suntuosos, onde esperam jazer e ser reverenciados depois de mortos. São verdadeiros estorvos sociais, mas conseguem influenciar pessoas e por isso se dão bem. Ao seu modo, evidentemente.
Publicação simultânea em O Imparcial, de São Luís (MA), 12.04.08
sexta-feira, 11 de abril de 2008
sábado, 5 de abril de 2008
Assimetria na Escolaridade Provoca Distribuição Desigual da Renda
Por
José Lemos
Engenheiro Agrônomo. Educador. Professor Associado na Universidade Federal do Ceará.
lemos@ufc.br.
Há discussões recorrentes que tentam relacionar o impacto da escolaridade média sobre a renda. Sabe-se que a educação é insumo essencial para que haja desenvolvimento econômico. Sem educação é impossível uma Nação almejar a desenvolver-se e, no caso das economias mais atrasadas, a retirar um contingente significativo da sua população do estáagio de exclusão social em que se encontra. O crescimento da riqueza é condição necessária para promover inclusão, ainda que não suficiente. Apenas o crescimento do produto agregado não será capaz de irradiar progresso num ambiente em que as pessoas têm baixos níveis de escolaridade, são desinformadas, ou são analfabetas. Nestes casos, pode haver crescimento da renda sem a contrapartida da melhoria do nível de bem-estar geral, e a apropriação dessa renda será feita por um segmento restrito da população, ou de forma assimétrica, como aconteceu no Brasil na época do “milagre econômico” dos anos 1970.
Países como Hong Kong, Singapura e Coréia do Sul, que estão no topo do ranking dos países do Terceiro Mundo com os melhores padrões de desenvolvimento, construíram o seu progresso com eqüidade, fazendo maciços investimentos na educação da sua gente. Esses países erradicaram o analfabetismo, como se depreende de estatísticas recentes publicadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), e conseguiram elevar o PIB per capita sem grandes disparidades entre ricos e pobres. São países com níveis de distribuição de renda bem superiores àqueles dos países da América Latina, mesmo nos melhores posicionados no ranking da ONU, como Argentina, Chile, Costa Rica, Uruguai e México.
O Brasil é um dos países que apresentam um dos maiores padrões de desigualdade na apropriação e distribuição da renda e da riqueza no mundo. Com efeito, dos 177 países para os quais o relatório da ONU de 2007 disponibiliza informações, em apenas sete (Colômbia, Bolívia, Haiti, Botswana, Moldovia, Republica Central Africana e Lesotto) o nível de concentração da renda é pior do que a do Brasil. Em todos esses, os padrões de analfabetismo e de escolaridade são bem piores do que os brasileiros.
No Brasil, o percentual da população maior de dez anos analfabeta em 2006 era de 10,15%. O Nordeste, que é a região mais pobre do país, tinha taxa de analfabetismo naquele ano de 18,04%, e o Sudeste, que é a região mais rica, tinha taxa de analfabetismo de 8,17%. Por outro lado, a escolaridade média no Brasil, em 2006, era de 7,44 anos. No Sudeste está a maior escolaridade média no Brasil com 8,17 anos, e no Nordeste encontra-se a menor escolaridade média nas regiões: 6,13 anos. Ou seja, a escolaridade média desta região representava 82,39% da média brasileira, e apenas 75% da média do Sudeste.
Elaboramos um trabalho cientifico que afere a relação de causa-efeito entre educação e PIB per capita. Nesse estudo mostramos que para cada ano a mais de escolaridade média no Sudeste o PIB per capita regional cresce de R$ 6.778,53. No Nordeste um ano a mais de escolaridade incrementa o PIB médio regional de apenas R$ 3.710,96. Como a taxa de aceleração da escolaridade média no Nordeste foi maior do que a do Sudeste entre 2001 e 2006, o tempo necessário para acrescentar um ano de escolaridade média no Nordeste é de 3,02 anos e no Sudeste de 3,22 anos. Os PIB per capita atuais do Brasil, Sudeste e Nordeste são de respectivamente: R$ 11.650,10; R$ 15.467,80 e R$ 5.498,03. Nesse estudo, mostramos que no Nordeste estão os maiores índices de assimetria na apropriação da renda.
Destas evidências depreende-se que o maior esforço no Brasil deveria ser a construção e a execução de um Programa de Aceleração da Escolaridade (PAE). Um plano assim provocaria uma aceleração nas atividades econômicas, com uma melhor repartição da renda e da riqueza. Esta foi a estratégia da Coréia do Sul, Singapura e Hong Kong.
Publicação simultânea no jornal O Imparcial, de São Luís, MA
José Lemos
Engenheiro Agrônomo. Educador. Professor Associado na Universidade Federal do Ceará.
lemos@ufc.br.
Há discussões recorrentes que tentam relacionar o impacto da escolaridade média sobre a renda. Sabe-se que a educação é insumo essencial para que haja desenvolvimento econômico. Sem educação é impossível uma Nação almejar a desenvolver-se e, no caso das economias mais atrasadas, a retirar um contingente significativo da sua população do estáagio de exclusão social em que se encontra. O crescimento da riqueza é condição necessária para promover inclusão, ainda que não suficiente. Apenas o crescimento do produto agregado não será capaz de irradiar progresso num ambiente em que as pessoas têm baixos níveis de escolaridade, são desinformadas, ou são analfabetas. Nestes casos, pode haver crescimento da renda sem a contrapartida da melhoria do nível de bem-estar geral, e a apropriação dessa renda será feita por um segmento restrito da população, ou de forma assimétrica, como aconteceu no Brasil na época do “milagre econômico” dos anos 1970.
Países como Hong Kong, Singapura e Coréia do Sul, que estão no topo do ranking dos países do Terceiro Mundo com os melhores padrões de desenvolvimento, construíram o seu progresso com eqüidade, fazendo maciços investimentos na educação da sua gente. Esses países erradicaram o analfabetismo, como se depreende de estatísticas recentes publicadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), e conseguiram elevar o PIB per capita sem grandes disparidades entre ricos e pobres. São países com níveis de distribuição de renda bem superiores àqueles dos países da América Latina, mesmo nos melhores posicionados no ranking da ONU, como Argentina, Chile, Costa Rica, Uruguai e México.
O Brasil é um dos países que apresentam um dos maiores padrões de desigualdade na apropriação e distribuição da renda e da riqueza no mundo. Com efeito, dos 177 países para os quais o relatório da ONU de 2007 disponibiliza informações, em apenas sete (Colômbia, Bolívia, Haiti, Botswana, Moldovia, Republica Central Africana e Lesotto) o nível de concentração da renda é pior do que a do Brasil. Em todos esses, os padrões de analfabetismo e de escolaridade são bem piores do que os brasileiros.
No Brasil, o percentual da população maior de dez anos analfabeta em 2006 era de 10,15%. O Nordeste, que é a região mais pobre do país, tinha taxa de analfabetismo naquele ano de 18,04%, e o Sudeste, que é a região mais rica, tinha taxa de analfabetismo de 8,17%. Por outro lado, a escolaridade média no Brasil, em 2006, era de 7,44 anos. No Sudeste está a maior escolaridade média no Brasil com 8,17 anos, e no Nordeste encontra-se a menor escolaridade média nas regiões: 6,13 anos. Ou seja, a escolaridade média desta região representava 82,39% da média brasileira, e apenas 75% da média do Sudeste.
Elaboramos um trabalho cientifico que afere a relação de causa-efeito entre educação e PIB per capita. Nesse estudo mostramos que para cada ano a mais de escolaridade média no Sudeste o PIB per capita regional cresce de R$ 6.778,53. No Nordeste um ano a mais de escolaridade incrementa o PIB médio regional de apenas R$ 3.710,96. Como a taxa de aceleração da escolaridade média no Nordeste foi maior do que a do Sudeste entre 2001 e 2006, o tempo necessário para acrescentar um ano de escolaridade média no Nordeste é de 3,02 anos e no Sudeste de 3,22 anos. Os PIB per capita atuais do Brasil, Sudeste e Nordeste são de respectivamente: R$ 11.650,10; R$ 15.467,80 e R$ 5.498,03. Nesse estudo, mostramos que no Nordeste estão os maiores índices de assimetria na apropriação da renda.
Destas evidências depreende-se que o maior esforço no Brasil deveria ser a construção e a execução de um Programa de Aceleração da Escolaridade (PAE). Um plano assim provocaria uma aceleração nas atividades econômicas, com uma melhor repartição da renda e da riqueza. Esta foi a estratégia da Coréia do Sul, Singapura e Hong Kong.
Publicação simultânea no jornal O Imparcial, de São Luís, MA
sábado, 29 de março de 2008
“O NOSSO FUTURO COMUM”
Por
José Lemos
Engenheiro Agrônomo.
Professor Associado na Universidade Federal do Ceará. lemos@ufc.br.
Ao Final de 1987 reuniu-se na Noruega a Comissão Mundial do Meio Ambiente com a participação de dirigentes dos Países filiados à Organização das Nações Unidas. Naquele conclave foi produzido o Relatório de Brundtland, assim chamado em homenagem à primeira ministra Norueguesa, senhora Grö Harlen Brundtland, como título “O Nosso Futuro Comum”. A partir daquele Relatório, o conceito de desenvolvimento sustentável passou a ser mais difundido e a merecer uma maior atenção daqueles que tem responsabilidade sobre a condução das políticas públicas, por quem milita nos movimentos sociais em prol das causas ambientais e também para os Acadêmicos.
Conforme aquele relatório, Desenvolvimento sustentável é aquele que viabiliza no presente melhores padrões de qualidade de vida, sem afetar a base dos recursos naturais, de tal sorte que as gerações futuras possam usufruir um planeta pelo menos igual ao que nós vivemos. Trata-se de concepção de desenvolvimento muito difícil de ser atingida no modelo de economia que tem no imediatismo e nos elevados padrões de pobreza atualmente prevalecentes no mundo, alguns dos seus principais óbices. Já mostramos em texto anterior neste espaço que pobreza e devastação dos recursos naturais caminham juntas. Portanto, sem reduzir os níveis atuais de pobreza é impossível pensar em desenvolvimento, e muito menos em desenvolvimento sustentável.
O Relatório de Brundtland apresentou sugestões que deveriam ser seguidas pelos países no sentido de buscarem o desenvolvimento sustentável. Dentre estas sugestões uma das mais relevantes seria a limitação do crescimento populacional. Esta proposição fundamenta-se no fato de que o tamanho físico do planeta terra é finito e, na medida em que a população cresce, há uma maior pressão sobre todos os seus recursos.
Atualmente a população mundial está em torno de 6,7 bilhões. Toda essa gente se levanta todos os dias precisando se alimentar. Em média cada pessoa necessita de aproximadamente 1000 gramas de alimentos por dia. Por este dado podemos aferir o tamanho do problema: retirar do solo este montante de comida todos os dias para garantir segurança alimentar.
Além disso, cada pessoa necessita, segundo a ONU, de aproximadamente 20 litros de água diariamente para beber, preparar alimentos e para a higiene pessoal. A disponibilidade de água doce no planeta é restrita e mal distribuída. Essa gente produz dejetos e resíduos sólidos diariamente. Esse material precisa de local para acondicionamento de forma segura para não contaminar o ambiente. Ou seja, necessita-se de serviço de saneamento e de locais adequados para acondicionar os resíduos sólidos.
No seu Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006, a ONU enfatiza as dificuldades decorrentes da falta de acesso ao saneamento e à água potável para as populações. Segundo aquele Relatório, em torno de 2,2 bilhões da população do planeta não dispõem desses serviços. Estas seriam algumas das causas das mortalidades: infantil, de crianças menores de cinco anos e de idosos no mundo.
A sugestão do Relatório de Brundtland é no sentido de que as populações, sobretudo as pobres, sejam expostas a informações e a condições que lhes viabilizem planejarem o tamanho das suas famílias. De outro modo, a explosão demográfica exorbitará e com ela a urbanização das populações acontecerá de forma incontrolável. Contudo, o aumento das populações urbanas não decorre apenas do seu crescimento vegetativo, mas é significativamente incrementado pela migração das populações rurais, empobrecidas, sem acesso à terra e à renda, e que buscam melhor qualidade de vida nas cidades sem dispor, entretanto, de condições para se estabelecer dignamente nessas áreas urbanas. Consequentemente haverá uma pressão sobre os serviços públicos, comprometendo a sua eficiência e qualidade.
Assim, além do controle populacional, parte dos problemas das cidades pode ser atenuada com ações de políticas públicas para reduzir o êxodo rural, de onde se depreende que, para haver desenvolvimento sustentável, há que se promover desenvolvimento rural. Esta é uma das implicações do Relatório de Brundtland. Os dirigentes insistem em desconhecê-las, por isso o caos social e ambiental nos atemoriza.
(Publicado simultaneamente no jornal O Imparcial, de São Luís MA)
José Lemos
Engenheiro Agrônomo.
Professor Associado na Universidade Federal do Ceará. lemos@ufc.br.
Ao Final de 1987 reuniu-se na Noruega a Comissão Mundial do Meio Ambiente com a participação de dirigentes dos Países filiados à Organização das Nações Unidas. Naquele conclave foi produzido o Relatório de Brundtland, assim chamado em homenagem à primeira ministra Norueguesa, senhora Grö Harlen Brundtland, como título “O Nosso Futuro Comum”. A partir daquele Relatório, o conceito de desenvolvimento sustentável passou a ser mais difundido e a merecer uma maior atenção daqueles que tem responsabilidade sobre a condução das políticas públicas, por quem milita nos movimentos sociais em prol das causas ambientais e também para os Acadêmicos.
Conforme aquele relatório, Desenvolvimento sustentável é aquele que viabiliza no presente melhores padrões de qualidade de vida, sem afetar a base dos recursos naturais, de tal sorte que as gerações futuras possam usufruir um planeta pelo menos igual ao que nós vivemos. Trata-se de concepção de desenvolvimento muito difícil de ser atingida no modelo de economia que tem no imediatismo e nos elevados padrões de pobreza atualmente prevalecentes no mundo, alguns dos seus principais óbices. Já mostramos em texto anterior neste espaço que pobreza e devastação dos recursos naturais caminham juntas. Portanto, sem reduzir os níveis atuais de pobreza é impossível pensar em desenvolvimento, e muito menos em desenvolvimento sustentável.
O Relatório de Brundtland apresentou sugestões que deveriam ser seguidas pelos países no sentido de buscarem o desenvolvimento sustentável. Dentre estas sugestões uma das mais relevantes seria a limitação do crescimento populacional. Esta proposição fundamenta-se no fato de que o tamanho físico do planeta terra é finito e, na medida em que a população cresce, há uma maior pressão sobre todos os seus recursos.
Atualmente a população mundial está em torno de 6,7 bilhões. Toda essa gente se levanta todos os dias precisando se alimentar. Em média cada pessoa necessita de aproximadamente 1000 gramas de alimentos por dia. Por este dado podemos aferir o tamanho do problema: retirar do solo este montante de comida todos os dias para garantir segurança alimentar.
Além disso, cada pessoa necessita, segundo a ONU, de aproximadamente 20 litros de água diariamente para beber, preparar alimentos e para a higiene pessoal. A disponibilidade de água doce no planeta é restrita e mal distribuída. Essa gente produz dejetos e resíduos sólidos diariamente. Esse material precisa de local para acondicionamento de forma segura para não contaminar o ambiente. Ou seja, necessita-se de serviço de saneamento e de locais adequados para acondicionar os resíduos sólidos.
No seu Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006, a ONU enfatiza as dificuldades decorrentes da falta de acesso ao saneamento e à água potável para as populações. Segundo aquele Relatório, em torno de 2,2 bilhões da população do planeta não dispõem desses serviços. Estas seriam algumas das causas das mortalidades: infantil, de crianças menores de cinco anos e de idosos no mundo.
A sugestão do Relatório de Brundtland é no sentido de que as populações, sobretudo as pobres, sejam expostas a informações e a condições que lhes viabilizem planejarem o tamanho das suas famílias. De outro modo, a explosão demográfica exorbitará e com ela a urbanização das populações acontecerá de forma incontrolável. Contudo, o aumento das populações urbanas não decorre apenas do seu crescimento vegetativo, mas é significativamente incrementado pela migração das populações rurais, empobrecidas, sem acesso à terra e à renda, e que buscam melhor qualidade de vida nas cidades sem dispor, entretanto, de condições para se estabelecer dignamente nessas áreas urbanas. Consequentemente haverá uma pressão sobre os serviços públicos, comprometendo a sua eficiência e qualidade.
Assim, além do controle populacional, parte dos problemas das cidades pode ser atenuada com ações de políticas públicas para reduzir o êxodo rural, de onde se depreende que, para haver desenvolvimento sustentável, há que se promover desenvolvimento rural. Esta é uma das implicações do Relatório de Brundtland. Os dirigentes insistem em desconhecê-las, por isso o caos social e ambiental nos atemoriza.
(Publicado simultaneamente no jornal O Imparcial, de São Luís MA)
sexta-feira, 28 de março de 2008
Gotas Ácidas
#Para que, mesmo, palitos embalados em plástico?
#A pessoa estuda, estuda e se capacita, para depois omitir-se ante a vontade dos poderosos. Para que tanto investimento em educação?
#Adianta percorrer quilômetros em avião a jato, para depois ficar horas no engarrafamento?
#Estamos torrando o Cerrado brasileiro para mandar carne e, assim, matar europeu de doenças coronárias. Dito de outra forma: queimamos o Cerrado para exportar soja que alimentará gado que matará europeu do coração.
#Para que canudinho, se posso levar o copo à boca?
#Prefeitos do Ceará alegam aceitar a deterioração do litoral em nome do desenvolvimento e criticam o Ministério Público Federal por exigir o respeito à lei. Cadeia pra eles.
#Que usa saco plástico não pode se queixar de entupimento de bueiros.
#Vale a pena chegar ao governo sem poder para implementar bandeiras pelas quais lutou por uma vida?
#“Não existe luta pura” (Simone de Beauvoir, Moral da Ambigüidade)
#Para que copo plástico, se posso usar copo de vidro?
#Parece que a juventude 1968 do “Seja razoável. Exija o impossível” estava certa. O possível fez-nos chegar ao atual estado de coisas.
#A pessoa estuda, estuda e se capacita, para depois omitir-se ante a vontade dos poderosos. Para que tanto investimento em educação?
#Adianta percorrer quilômetros em avião a jato, para depois ficar horas no engarrafamento?
#Estamos torrando o Cerrado brasileiro para mandar carne e, assim, matar europeu de doenças coronárias. Dito de outra forma: queimamos o Cerrado para exportar soja que alimentará gado que matará europeu do coração.
#Para que canudinho, se posso levar o copo à boca?
#Prefeitos do Ceará alegam aceitar a deterioração do litoral em nome do desenvolvimento e criticam o Ministério Público Federal por exigir o respeito à lei. Cadeia pra eles.
#Que usa saco plástico não pode se queixar de entupimento de bueiros.
#Vale a pena chegar ao governo sem poder para implementar bandeiras pelas quais lutou por uma vida?
#“Não existe luta pura” (Simone de Beauvoir, Moral da Ambigüidade)
#Para que copo plástico, se posso usar copo de vidro?
#Parece que a juventude 1968 do “Seja razoável. Exija o impossível” estava certa. O possível fez-nos chegar ao atual estado de coisas.
segunda-feira, 24 de março de 2008
“SIM, NÓS PODEMOS”
Soluções simples e factíveis não exigem grandes somas de recursos financeiros.
Por
José Lemos
Engenheiro Agrônomo. Professor Associado na Universidade Federal do Ceará. Ex-Secretario de Assuntos Estratégicos e de Agricultura do Maranhão em 2005/2006. lemos@ufc.br. O Artigo pode também ser lido nos endereços
Esta é a frase predominante na campanha do Senador negro Barack Obama na disputa em que busca ser designado para ser o candidato do Partido Democrata nas eleições deste ano na maior economia do planeta, que passa por momentos difíceis, em grande parte, pelo despreparo intelectual e gerencial do atual presidente. A disputa este ano ao cargo mais poderoso, e de maior prestígio no mundo, terá um condimento adicional: pela primeira vez uma mulher ou um negro o disputarão por um dos grandes partidos políticos norte-americanos.
Mas a passagem acima foi colocada para destacar a frase que tanto impacto vem causando na campanha do Senador Obama. Tornou-se verdadeiro “grito de guerra” dos seus adeptos (que não são poucos) por ele possuir uma retórica fluente, firme e postura sedutora de grandes massas. A frase “Sim, nós podemos” bem que pode servir de mote para qualquer uma das economias pobres que dispõem de potencial para deslanchar um ciclo virtuoso de progresso social e econômico, inclusive a maranhense.
Nos países desenvolvidos, sobretudo da Europa, existem grupos de consumidores interessados em adquirir bens egressos de economias pobres, produzidos por grupos sociais em busca de melhores qualidades de vida. Há uma fatia expressiva de mercado para itens produzidos sem a agressão ao ambiente. São os chamados “fairtrade” (comércio justo) que priorizam a aquisição de bens que agregam valor social e ambiental na sua composição.
Como seriam esses bens? Seriam artesanatos produzidos por associações cadastradas e com o seu trabalho sendo reconhecido como de interesse social. Seriam demandas por tecidos ou por fios de algodão coloridos, já bastante produzidos na Paraíba, mas com potencial para expansão para outros Estados. Seriam bens egressos de áreas nativas da Amazônia ou do Nordeste que são cultivados ou extraídos utilizando manejo adequado, preservando a fauna e a flora nativas. Cita-se, por exemplo, o caso da juçara no Maranhão (ou o açaí como é conhecido mundo afora). O fruto da juçareira tem larga demanda nesses mercados tanto como alimento saudável e como produto energético utilizado em academias de escultura do corpo. Da juçareira manejada de forma correta, mantendo três palmeiras por touceira (“mãe”, “filha” e “neta”), desbastando as excedentes produz-se o palmito de forma sustentável. A juçareira por ser monocotiledônea, tem um sistema radicular denso, que é excelente para segurar erosão e recompor as matas ciliares de rios e de outros corpos de águas superficiais que estejam em agonia. Por essas características a juçara é um excelente item para compor a cesta de bens para o “fairtrade” .
No Maranhão existe uma experiência exitosa de um grupo de agricultores e extrativistas familiares que já participam de “fairtrade”. Trata-se da Cooperativa Agroextrativista de Lago do Junco (COOPALJ). Esta cooperativa adquire as amêndoas das quebradeiras de coco babaçu através de oito (8) cantinas localizadas em pontos estratégicos do município. As quebradeiras de coco entregam a sua produção de amêndoas nessas cantinas e recebem um preço diferenciado para cima (em relação ao que é praticado nos mercados locais). Elas podem optar em receber o pagamento em dinheiro ou em mercadorias. Como a Cooperativa adquire os mantimentos com descontos, são repassados aos associados por um preço diferenciado para baixo (também em relação aos mercados locais). Um caminhão da Cooperativa recolhe as amêndoas e leva para a sede. Junto com as amêndoas são coletados os resíduos, que são o epicarpo e endocarpo, de elevado poder calorífico. Esses resíduos alimentam as fornalhas que transformarão as amêndoas em óleo bruto. Todo o óleo é exportado para a Inglaterra através do “fairtrade”. A demanda é cativa e os preços são diferenciados porque os importadores conhecem todo o sistema de produção solidária. Todos os sócios recebem as sobras que são distribuídas de forma proporcional, depois de cobertas as despesas operacionais da Cooperativa.
É bastante provável que o biocombustível utilizado no Boeing 747 que voou de Londres para Amsterdã no final do mês passado tenha sido fabricado a partir do óleo de babaçu produzido pela COOPALJ que movimenta recursos superiores ao FPM de Lago do Junco. Trata-se de uma grande experiência que os maranhenses deveriam conhecer e que talvez valha a pena ser adotada como inspiração e modelo. Como aquela, podem ser desenhadas muitas alternativas de produção solidária que tem mercados cativos através dos “fairtrade”. Como diria o Senador Obama, “Sim, Nós Podemos”. Eu acrescentaria: Basta que queiramos e tomemos decisões ousadas, com responsabilidade e competência técnica, pois soluções simples e factíveis não exigem grandes somas de recursos financeiros.
Por
José Lemos
Engenheiro Agrônomo. Professor Associado na Universidade Federal do Ceará. Ex-Secretario de Assuntos Estratégicos e de Agricultura do Maranhão em 2005/2006. lemos@ufc.br. O Artigo pode também ser lido nos endereços
Esta é a frase predominante na campanha do Senador negro Barack Obama na disputa em que busca ser designado para ser o candidato do Partido Democrata nas eleições deste ano na maior economia do planeta, que passa por momentos difíceis, em grande parte, pelo despreparo intelectual e gerencial do atual presidente. A disputa este ano ao cargo mais poderoso, e de maior prestígio no mundo, terá um condimento adicional: pela primeira vez uma mulher ou um negro o disputarão por um dos grandes partidos políticos norte-americanos.
Mas a passagem acima foi colocada para destacar a frase que tanto impacto vem causando na campanha do Senador Obama. Tornou-se verdadeiro “grito de guerra” dos seus adeptos (que não são poucos) por ele possuir uma retórica fluente, firme e postura sedutora de grandes massas. A frase “Sim, nós podemos” bem que pode servir de mote para qualquer uma das economias pobres que dispõem de potencial para deslanchar um ciclo virtuoso de progresso social e econômico, inclusive a maranhense.
Nos países desenvolvidos, sobretudo da Europa, existem grupos de consumidores interessados em adquirir bens egressos de economias pobres, produzidos por grupos sociais em busca de melhores qualidades de vida. Há uma fatia expressiva de mercado para itens produzidos sem a agressão ao ambiente. São os chamados “fairtrade” (comércio justo) que priorizam a aquisição de bens que agregam valor social e ambiental na sua composição.
Como seriam esses bens? Seriam artesanatos produzidos por associações cadastradas e com o seu trabalho sendo reconhecido como de interesse social. Seriam demandas por tecidos ou por fios de algodão coloridos, já bastante produzidos na Paraíba, mas com potencial para expansão para outros Estados. Seriam bens egressos de áreas nativas da Amazônia ou do Nordeste que são cultivados ou extraídos utilizando manejo adequado, preservando a fauna e a flora nativas. Cita-se, por exemplo, o caso da juçara no Maranhão (ou o açaí como é conhecido mundo afora). O fruto da juçareira tem larga demanda nesses mercados tanto como alimento saudável e como produto energético utilizado em academias de escultura do corpo. Da juçareira manejada de forma correta, mantendo três palmeiras por touceira (“mãe”, “filha” e “neta”), desbastando as excedentes produz-se o palmito de forma sustentável. A juçareira por ser monocotiledônea, tem um sistema radicular denso, que é excelente para segurar erosão e recompor as matas ciliares de rios e de outros corpos de águas superficiais que estejam em agonia. Por essas características a juçara é um excelente item para compor a cesta de bens para o “fairtrade” .
No Maranhão existe uma experiência exitosa de um grupo de agricultores e extrativistas familiares que já participam de “fairtrade”. Trata-se da Cooperativa Agroextrativista de Lago do Junco (COOPALJ). Esta cooperativa adquire as amêndoas das quebradeiras de coco babaçu através de oito (8) cantinas localizadas em pontos estratégicos do município. As quebradeiras de coco entregam a sua produção de amêndoas nessas cantinas e recebem um preço diferenciado para cima (em relação ao que é praticado nos mercados locais). Elas podem optar em receber o pagamento em dinheiro ou em mercadorias. Como a Cooperativa adquire os mantimentos com descontos, são repassados aos associados por um preço diferenciado para baixo (também em relação aos mercados locais). Um caminhão da Cooperativa recolhe as amêndoas e leva para a sede. Junto com as amêndoas são coletados os resíduos, que são o epicarpo e endocarpo, de elevado poder calorífico. Esses resíduos alimentam as fornalhas que transformarão as amêndoas em óleo bruto. Todo o óleo é exportado para a Inglaterra através do “fairtrade”. A demanda é cativa e os preços são diferenciados porque os importadores conhecem todo o sistema de produção solidária. Todos os sócios recebem as sobras que são distribuídas de forma proporcional, depois de cobertas as despesas operacionais da Cooperativa.
É bastante provável que o biocombustível utilizado no Boeing 747 que voou de Londres para Amsterdã no final do mês passado tenha sido fabricado a partir do óleo de babaçu produzido pela COOPALJ que movimenta recursos superiores ao FPM de Lago do Junco. Trata-se de uma grande experiência que os maranhenses deveriam conhecer e que talvez valha a pena ser adotada como inspiração e modelo. Como aquela, podem ser desenhadas muitas alternativas de produção solidária que tem mercados cativos através dos “fairtrade”. Como diria o Senador Obama, “Sim, Nós Podemos”. Eu acrescentaria: Basta que queiramos e tomemos decisões ousadas, com responsabilidade e competência técnica, pois soluções simples e factíveis não exigem grandes somas de recursos financeiros.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Haverá Água para Todos?
Texto-reflexão para o Dia Mundial das Águas, 22 de março. A data foi criada pela ONU, por determinação da 2ª Conferência Internacional sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, a Rio 92.
Pesquisa de
Vólia Barreira
Nos últimos 60 anos a população mundial duplicou. No mesmo período, o consumo de água pelas diferentes atividades humanas aumentou em 7 vezes, enquanto a quantidade de água existente permaneceu igual. O aumento da população urbana, aliado à poluição e ao mau uso da água, compõe um quadro preocupante. Garantir água de boa qualidade nas grandes cidades, será um dos principais desafios deste século.
Estresse hídrico é a relação entre a disponibilidade natural e os diversos usos que o homem faz da água, como a produção de alimentos, o abastecimento público, a geração de energia, a diluição de esgotos, entre tantos outros. O estresse hídrico já é uma realidade em várias metrópoles mundiais.
Com as previsões de alterações climáticas no cenário mundial, ocorrerão mudanças nos regimes de chuvas em vários locais do planeta, inclusive no Brasil, que prenunciam um cenário ainda mais sombrio de restrição do acesso à água em um futuro próximo, com proporções gigantescas, caso as previsões se confirmem nas próximas décadas.
O Brasil, que possui 12% de toda a água limpa do planeta, é um dos países que mais desperdiçam água no mundo.
Um estudo divulgado em novembro passado pelo Instituto Socioambiental – ISA, lançou luz sobre a situação do abastecimento público e do saneamento básico nas 27 capitais brasileiras. O levantamento revela que 45% da água retirada dos mananciais das capitais são desperdiçados em vazamentos, submedições e fraudes. A quantidade de água jogada fora é estimada em 6,14 bilhões de litros por dia (o equivalente a 2.457 piscinas olímpicas) e seria suficiente para atender ao consumo diário de 38 milhões de pessoas – isto é, toda a população de um país como a Argentina!
Alguns dados da pesquisa são preocupantes:
ABASTECIMENTO. Apenas seis das 27 capitais, atendem à totalidade de sua população; apesar da média de cobertura ser de 90%, Porto Velho, Macapá e Rio Branco cobrem apenas 30,6%, 58,5% e 56,2% de suas populações, respectivamente.
CONSUMO. A média de consumo per capita nas capitais é de 150 litros por dia, acima portanto, do recomendado pela ONU, que é de 110 litros/dia; São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória apresentam os maiores consumos: mais de 220 litros/habitante/dia.
PERDA (por vazamentos e outros fatores). A água perdida diariamente nas capitais seria suficiente para abastecer 38 milhões de pessoas/dia; em termos percentuais, a campeã do desperdício é Porto velho, com 78,8% do total; em termos de volume perdido, o Rio de Janeiro ganha, jogando fora diariamente um volume igual ao de 618 piscinas olímpicas. Em Fortaleza, a perda de água chega a 47,9%, equivalente a 99 piscinas olímpicas, o que daria para abastecer uma população de 2.077.621 pessoas por dia!
Outro ponto que o estudo avaliou foi a situação do esgotamento sanitário nas grandes cidade do País. O descaso e a ausência de investimentos no setor, em especial nas áreas urbanas, são flagrantes. Quase metade da população residente nas capitais brasileiras (45%) tem seus esgotos despejados nos rios e no mar sem qualquer tratamento. E uma parcela significativa dessa população (13 milhões de habitantes) não dispõe sequer da coleta dos resíduos, convivendo de perto – nas portas ou nos fundos das casas – com a imundície e a poluição. Manaus, Belém e Rio Branco possuem os piores índices, com 3% dos seus moradores atendidos pelo serviço.
Cerca de 50% dos habitantes de Fortaleza não têm acesso à coleta e tratamento de esgoto. Lixo, enchentes, contaminação dos mananciais, água sem tratamento e doenças apresentam uma relação estreita. Diarréia, dengue, febre tifóide e malária, que resultam em milhares de mortes anuais, principalmente de crianças, são transmitidas por água contaminada por esgotos humanos, dejetos animais e lixo. Nada menos que 70% das internações na rede pública de saúde estão relacionadas com doenças transmitidas pela água!
Um dos maiores trunfos do Brasil em relação a garantia de abastecimento é o Aqüífero Guaraní, maior reserva de água doce subterrânea do mundo. Do potencial e água renovável que circula nesse reservatório, entre 24% e 48% podem ser explorados.
No entanto esse fabuloso recurso não está isento de problemas. Primeiro, devido à contaminação, que já vem ocorrendo em decorrência de vários fatores, entre eles, o grande número de poços operados e abandonados sem tecnologia adequada. Depois, porque a área do Guarani se distribui por vários territórios: 70% no Brasil e o restante em argentina, Paraguai e Uruguai.Tal peculiaridade torna necessário uma ação conjunta dos 4 países no sentido de defender sua soberania sobre o aquífero, e regular seu uso de forma justa e parcimoniosa.
Para que seja assegurada a sustentabilidade no abastecimento de água nas grandes cidades mundiais, é fundamental que os governantes adotem políticas públicas que promovam a proteção dos mananciais, a ampliação das áreas permeáveis, a diminuição dos desperdícios e perdas, juntamente com a racionalização e o uso mais equitativo desse recurso fundamental para a vida no planeta.
Para proteger os mananciais, é necessário frear a expansão da mancha urbana para as capitais, garantir condições de vida adequadas para os moradores e investir em saneamento. Também é fundamental proteger e ampliar as áreas com cobertura vegetal e valorizar os serviços oferecidos em suas imediações, entre eles, o provimento de espaços de lazer para a população.
Fontes: IBGE/2004
Instituto Socioambiental – ISA - http://www.mananciais.org.br/
Revista Le Monde Diplomatique/Brasil - janeiro/2008
Pesquisa de
Vólia Barreira
Nos últimos 60 anos a população mundial duplicou. No mesmo período, o consumo de água pelas diferentes atividades humanas aumentou em 7 vezes, enquanto a quantidade de água existente permaneceu igual. O aumento da população urbana, aliado à poluição e ao mau uso da água, compõe um quadro preocupante. Garantir água de boa qualidade nas grandes cidades, será um dos principais desafios deste século.
Estresse hídrico é a relação entre a disponibilidade natural e os diversos usos que o homem faz da água, como a produção de alimentos, o abastecimento público, a geração de energia, a diluição de esgotos, entre tantos outros. O estresse hídrico já é uma realidade em várias metrópoles mundiais.
Com as previsões de alterações climáticas no cenário mundial, ocorrerão mudanças nos regimes de chuvas em vários locais do planeta, inclusive no Brasil, que prenunciam um cenário ainda mais sombrio de restrição do acesso à água em um futuro próximo, com proporções gigantescas, caso as previsões se confirmem nas próximas décadas.
O Brasil, que possui 12% de toda a água limpa do planeta, é um dos países que mais desperdiçam água no mundo.
Um estudo divulgado em novembro passado pelo Instituto Socioambiental – ISA, lançou luz sobre a situação do abastecimento público e do saneamento básico nas 27 capitais brasileiras. O levantamento revela que 45% da água retirada dos mananciais das capitais são desperdiçados em vazamentos, submedições e fraudes. A quantidade de água jogada fora é estimada em 6,14 bilhões de litros por dia (o equivalente a 2.457 piscinas olímpicas) e seria suficiente para atender ao consumo diário de 38 milhões de pessoas – isto é, toda a população de um país como a Argentina!
Alguns dados da pesquisa são preocupantes:
ABASTECIMENTO. Apenas seis das 27 capitais, atendem à totalidade de sua população; apesar da média de cobertura ser de 90%, Porto Velho, Macapá e Rio Branco cobrem apenas 30,6%, 58,5% e 56,2% de suas populações, respectivamente.
CONSUMO. A média de consumo per capita nas capitais é de 150 litros por dia, acima portanto, do recomendado pela ONU, que é de 110 litros/dia; São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória apresentam os maiores consumos: mais de 220 litros/habitante/dia.
PERDA (por vazamentos e outros fatores). A água perdida diariamente nas capitais seria suficiente para abastecer 38 milhões de pessoas/dia; em termos percentuais, a campeã do desperdício é Porto velho, com 78,8% do total; em termos de volume perdido, o Rio de Janeiro ganha, jogando fora diariamente um volume igual ao de 618 piscinas olímpicas. Em Fortaleza, a perda de água chega a 47,9%, equivalente a 99 piscinas olímpicas, o que daria para abastecer uma população de 2.077.621 pessoas por dia!
Outro ponto que o estudo avaliou foi a situação do esgotamento sanitário nas grandes cidade do País. O descaso e a ausência de investimentos no setor, em especial nas áreas urbanas, são flagrantes. Quase metade da população residente nas capitais brasileiras (45%) tem seus esgotos despejados nos rios e no mar sem qualquer tratamento. E uma parcela significativa dessa população (13 milhões de habitantes) não dispõe sequer da coleta dos resíduos, convivendo de perto – nas portas ou nos fundos das casas – com a imundície e a poluição. Manaus, Belém e Rio Branco possuem os piores índices, com 3% dos seus moradores atendidos pelo serviço.
Cerca de 50% dos habitantes de Fortaleza não têm acesso à coleta e tratamento de esgoto. Lixo, enchentes, contaminação dos mananciais, água sem tratamento e doenças apresentam uma relação estreita. Diarréia, dengue, febre tifóide e malária, que resultam em milhares de mortes anuais, principalmente de crianças, são transmitidas por água contaminada por esgotos humanos, dejetos animais e lixo. Nada menos que 70% das internações na rede pública de saúde estão relacionadas com doenças transmitidas pela água!
Um dos maiores trunfos do Brasil em relação a garantia de abastecimento é o Aqüífero Guaraní, maior reserva de água doce subterrânea do mundo. Do potencial e água renovável que circula nesse reservatório, entre 24% e 48% podem ser explorados.
No entanto esse fabuloso recurso não está isento de problemas. Primeiro, devido à contaminação, que já vem ocorrendo em decorrência de vários fatores, entre eles, o grande número de poços operados e abandonados sem tecnologia adequada. Depois, porque a área do Guarani se distribui por vários territórios: 70% no Brasil e o restante em argentina, Paraguai e Uruguai.Tal peculiaridade torna necessário uma ação conjunta dos 4 países no sentido de defender sua soberania sobre o aquífero, e regular seu uso de forma justa e parcimoniosa.
Para que seja assegurada a sustentabilidade no abastecimento de água nas grandes cidades mundiais, é fundamental que os governantes adotem políticas públicas que promovam a proteção dos mananciais, a ampliação das áreas permeáveis, a diminuição dos desperdícios e perdas, juntamente com a racionalização e o uso mais equitativo desse recurso fundamental para a vida no planeta.
Para proteger os mananciais, é necessário frear a expansão da mancha urbana para as capitais, garantir condições de vida adequadas para os moradores e investir em saneamento. Também é fundamental proteger e ampliar as áreas com cobertura vegetal e valorizar os serviços oferecidos em suas imediações, entre eles, o provimento de espaços de lazer para a população.
Fontes: IBGE/2004
Instituto Socioambiental – ISA - http://www.mananciais.org.br/
Revista Le Monde Diplomatique/Brasil - janeiro/2008
AMBIENTALISTAS COMEMORAM VITÓRIA NO TRF CONTRA PRODUÇÃO DE CARVÃO
A coordenação da Rede Ambiental do Piauí, em nota, afirma que o Piauí só tem a ganhar com a proteção dos seus recursos naturais, e que é impossível não se sensibilizar com os desmandos autorizados pelo poder público local.
Por
Dionísio Carvalho
A Rede Ambiental do Piauí -- REAPI -- e a Rede Mata Atlântica (RMA) comemoram a decisão da Quinta Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília, que suspendeu nesta quarta-feira (12) por unanimidade a autorização de desmatamento de 78 mil hectares concedida à empresa JB Carbon, produtora de carvão vegetal a partir das florestas de Caatinga, Cerrado e até Mata Atlântica.
O projeto da empresa, chamado de Energia Verde, tinha mais de 300 fornos que produziam carvão vegetal em escala industrial. O empreendimento sofreu paralisação por ordem do Juízo de 1º grau, a pedido do Ministério Público Federal.
A atividade econômica considerada insustentável por ambientalistas e especialistas da área foi finalmente paralisada pelos desembargadores da Quinta Turma do TRF, que tinha como relatora a desembargadora Federal, Selene Maria de Almeida. Ela usou em sua decisão documentos e fotos mostrando a destruição da fauna e flora brasileira ao sul do Piauí, causadas pelo o que os ambientalistas chamam de modelo de desenvolvimento a qualquer custo.
A área segundo pesquisadores é o encontro de três importantes biomas no planeta: Caatinga, Cerrado e o que resta da Mata Atlântica no Piauí. Dados do MMA revelam que cerca de 93% da mata atlântica original do Brasil já foi devastada.
Uma verdadeira batalha de ambientalistas da RMA e REAPI foi travada contra o Governo do Estado, deputados federais, estaduais e empresários do ramo carvoeiro após reportagem veiculada em rede nacional, no dia 26 de janeiro de 2007, pelo Globo Repórter.
Desde então o Governo do Piauí tem sido o maior advogado da JB Carbon. Concedeu até 12 anos de isenção fiscal para a empresa carioca, ela inclusive conseguiu duas autorizações do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) para prospectar minério de ferro nas proximidades da Serra Vermelha. A JB Carbon também aparece como uma das doadoras de recursos para campanha de reeleição do governador do Piauí, Wellington Dias (PT).
Mas apesar das dificuldades e retaliações enfrentadas pelos ambientalistas eles comemoram a decisão da Justiça. A coordenação da REAPI em nota afirma que o Piauí só tem a ganhar com a proteção dos seus recursos naturais, e que é impossível não se sensibilizar com os desmandos autorizados pelo poder público local.
Dionísio Carvalho
Rede Ambiental do Piauí - REAPI
(86) 8802-3879
Por
Dionísio Carvalho
A Rede Ambiental do Piauí -- REAPI -- e a Rede Mata Atlântica (RMA) comemoram a decisão da Quinta Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília, que suspendeu nesta quarta-feira (12) por unanimidade a autorização de desmatamento de 78 mil hectares concedida à empresa JB Carbon, produtora de carvão vegetal a partir das florestas de Caatinga, Cerrado e até Mata Atlântica.
O projeto da empresa, chamado de Energia Verde, tinha mais de 300 fornos que produziam carvão vegetal em escala industrial. O empreendimento sofreu paralisação por ordem do Juízo de 1º grau, a pedido do Ministério Público Federal.
A atividade econômica considerada insustentável por ambientalistas e especialistas da área foi finalmente paralisada pelos desembargadores da Quinta Turma do TRF, que tinha como relatora a desembargadora Federal, Selene Maria de Almeida. Ela usou em sua decisão documentos e fotos mostrando a destruição da fauna e flora brasileira ao sul do Piauí, causadas pelo o que os ambientalistas chamam de modelo de desenvolvimento a qualquer custo.
A área segundo pesquisadores é o encontro de três importantes biomas no planeta: Caatinga, Cerrado e o que resta da Mata Atlântica no Piauí. Dados do MMA revelam que cerca de 93% da mata atlântica original do Brasil já foi devastada.
Uma verdadeira batalha de ambientalistas da RMA e REAPI foi travada contra o Governo do Estado, deputados federais, estaduais e empresários do ramo carvoeiro após reportagem veiculada em rede nacional, no dia 26 de janeiro de 2007, pelo Globo Repórter.
Desde então o Governo do Piauí tem sido o maior advogado da JB Carbon. Concedeu até 12 anos de isenção fiscal para a empresa carioca, ela inclusive conseguiu duas autorizações do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) para prospectar minério de ferro nas proximidades da Serra Vermelha. A JB Carbon também aparece como uma das doadoras de recursos para campanha de reeleição do governador do Piauí, Wellington Dias (PT).
Mas apesar das dificuldades e retaliações enfrentadas pelos ambientalistas eles comemoram a decisão da Justiça. A coordenação da REAPI em nota afirma que o Piauí só tem a ganhar com a proteção dos seus recursos naturais, e que é impossível não se sensibilizar com os desmandos autorizados pelo poder público local.
Dionísio Carvalho
Rede Ambiental do Piauí - REAPI
(86) 8802-3879
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