sábado, 4 de abril de 2009

Índios Tremembé pedem demarcação

Entrevista com a liderança Tremembé Adriana Carneiro de Castro

[EcoDebate] Luta contra turismo predatório - Mais de 200 famílias Tremembé, no Município de Itapipoca, no Ceará, estão ameaçadas pelo projeto Nova Atlântida, que nasceu com o objetivo de se transformar no maior complexo turístico residencial do mundo, com mais de 3100 hectares. Conforme apresenta o site do Nova Atlántida, este é um projeto de um consórcio de 17 empresas que pretende cobrir uma superfície de trinta e dois milhões de metros quadrados, incluindo 27 hotéis de luxo e 7 campos de golfe, orçado em US$ 15 bilhões.

Mas o lugar é o território dos Tremembé. Desde 2008, a empresa espanhola “Afirma Housing Group” é responsável por este projeto que vai tirar as raízes das famílias Tremembé. O diretor da Nova Atlántida, Frank Roman, confirma o acampamento das comunidades, mas diz que os manifestantes são “pseudoíndios”. Mas os indígenas de São José e Buriti não querem ser expulsos por esta forma de desenvolvimento. Eles lutam para a demarcação das suas terras e pedem ajuda à ONG alemã Rettet den Regenwald. Desde o final de março, já mais de 5.900 pessoas mandaram cartas de apoio à FUNAI de Brasília. A socióloga Márcia Gomes falou com a liderança Tremembé Adriana Carneiro de Castro sobre este assunto.

* Qual é a história dos Tremembé? Vocês sempre viveram neste lugar?

Nossa história, nós nascemos e criamos nesse lugar. Nós broiamos daqui (alguém cortou a árvore e broiou novos galhos). Uma árvore que sempre foi deste lugar.

* Quantas pessoas há na comunidade hoje?

A FUNASA cadastrou 107 famílias. São mais ou menos 520 pessoas cadastradas. É um total de 205 famílias nas duas aldeias, São Jose e Buriti. Também temos parentes não identificados como índio, porque trabalham para a empresa. Já foram 100 trabalhadores, entre homens e mulheres. Hoje eles têm 30 trabalhadores.

* Como vivem tradicionalmente os Tremembé?

Nós vivemos até hoje de pesca, caça (principalmente de peba) e agricultura de mandioca. Também recebemos Bolsa Família e Aposentadoria Rural.

* Como é a geografia do lugar? Há restinga, lagoas?

Temos rios, mananciais. Temos lagoas no alto dos morros, com muita pesca. Há nascentes que nunca secaram. Temos a mata silvestre, a mata do murici que dá grande sobrevivência para nós. E no mês de novembro tem a Festa do Murici.

* Deste quando a empresa está na área?

Desde 1981 eles começaram a negociar com posseiros da região.

* Quem são estes posseiros?

Nossa terra já vem sendo roubada por muitos anos. Estes posseiros se apossaram de nossas terras. Toda esta terra está no processo de demarcação.

* No momento, o que a empresa está fazendo?

No momento a empresa não está construindo nada, até porque está na Justiça. Mas temos receio de que a qualquer momento ela possa fazer. Ela já fez construções, como viveiros de plantas e cercamento, tirando o nosso acesso aos manguezais.

* Quais plantas a empresa está fazendo muda nestes viveiros?

Não sei. Não são plantas daqui. Não tem nada a ver com o lugar.

* A empresa está fazendo o trabalho de distribuir mudas nas escolas, dizendo que é ecológico. Quanto tempo a empresa distribui estas mudas?

Há mais de três anos.

* Então as escolas da região e os políticos não apóiam vocês, não se relacionam com vocês? Vocês não têm a possibilidade de falar nas escolas contra isso?

Estamos começando a nos mobilizar e dar o nosso grito. Estamos começando a ir à Câmara Municipal e pedindo aos políticos de Itapipoca que nos respeitam como filhos dessa terra. Já pedimos para os vereadores observarem os projetos com atenção e não assinar projetos nas terras dos índios.

* Vocês têm sofrido ameaças e intimidações?

Sofremos muitas ameaças. Já houve processo contra nós no Fórum do Município de Itapipoca. A empresa usa o nome de pessoas do lugar para entrar com o processo. O processo foi contra mim e a minha irmã, porque denunciamos eles. Pegaram nós duas como se a gente fosse as cabeças. Processaram dizendo que nós não somos índios, que somos pagos para dizer que somos índios.

Outro conflito ocorreu em 2005. Nossa terra tem um sítio grande de coqueiral, tanto em São José quanto em Buriti. Tem uma cultura de coco só para a alimentação própria da gente. E nós queremos preservar o coqueiral. A empresa queria derrubar o nosso coqueiral e os índios proibiram. A Polícia Militar de Itapipoca foi paga pela empresa para nos agredir. A polícia bateu até em mulheres e crianças dentro das nossas terras. Este conflito durou dois meses. Teve gente presa. Mas a FUNAI do Ceará nos apoiou e a Polícia Federal deu ordem judicial proibindo a entrada deles nas nossas terras.

* E em relação à empresa, qual é o pensamento de vocês? O que vocês querem que aconteça com a empresa?

Nosso pensamento geral é que a empresa vá embora para bem longe e para sempre. A empresa é a contaminação da terra. Queremos que ela saia de nosso meio, da nossa terra. Que não faça nada aqui. Não deixe raízes.

* Como o povo brasileiro e os cidadãos do mundo podem ajudar vocês?

Desde 2006 foi prometido o GT de demarcação, mas a FUNAI não tomou nenhuma providência até agora. No momento o que tem de mais importante é que a FUNAI faça a demarcação. Tudo que pedimos é que a FUNAI de Brasília tome a decisão em nosso favor.

* Vocês têm contato com funcionários da FUNAI? Há uma comunicação entre vocês?

A gente manda a nossa reivindicação, mas a FUNAI de Fortaleza não tem poder. A FUNAI do Ceará depende da FUNAI de Brasília.

* Neste momento como está o processo de demarcação?

Desde 2006, foi prometido o Grupo de Trabalho de demarcação, mas nada foi feito até agora.

* Muito obrigada.

Vamos lutar e vencer juntos.

Entrevista realizada por Márcia Gomes (Socióloga e Professora) e edição de Norbert Suchanek (Jornalista de Ciência e Ecologia, colaborador e articulista do EcoDebate)
www.regenwald.org
www.salveaselva.org/
www.regenwald.org/protestaktion.php?id=388
www.salveaselva.org/protestaktion.php?id=390

Ver também: http://www.PetitionOnline.com/indios08/petition.html

[EcoDebate, 03/04/2009]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta que envie um e-mail para newsletter_ecodebate-subscribe@googlegroups.com. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

Fonte:

http://www.ecodebate.com.br/2009/04/03/tremembe-pedem-demarcacao-entrevista-com-a-lideranca-tremembe-adriana-carneiro-de-castro/

Abertas inscrições: Curso de Terapia Comunitária

Por Milene Madeiro
Jornalista


O Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim (MSMCBJ) abriu inscrições para o curso de Formação em Terapia Comunitária (TC), cujo objetivo é capacitar técnicos e profissionais na área de saúde, da educação e das ciências sociais, lideranças comunitárias e agentes multiplicadores para atuarem nas suas instituições e comunidades. A formação inicia no dia 16 de abril e se estende até outubro, com carga horária de 360h/a, distribuídas entre Módulos (160h/a teóricas e vivenciais), Intervisões (80h/a) e Práticas (120h/a).

O conteúdo programático inclui: Bases Teóricas da TC; Pensamento Sistêmico; Abordagem sistêmica da família; Desenvolvimento da TC; Práticas de TC; Teoria da Comunicação; Antropologia Cultural; Pedagogia de Paulo Freire; A Crise; Resiliência; Psicopatologia Básica; Co-dependência; Vivências Terapêuticas; Cuidar do Cuidador. O curso terá certificado conferido pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC) e é organizado em parceria com a Associação Brasileira de Terapia Comunitária (Abratecom) e o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária.

As vagas são limitadas e o investimento inclui inscrição (R$ 50,00), 8 parcelas de R$ 105,00 (referente aos módulos) e 4 parcelas de R$ 160,00 (referente a hospedagem). A formação acontecerá na Casa de Retiro Nossa Senhora das Graças (Rua Boa Vista, Nº571, Mondubim), onde serão realizados os 4 módulos que têm duração de 4 dias cada.

A equipe de formação é composta por: Pe. Rino Bonvini (Médico formado pela Universidade Degli Studi de Milano Itália, Especialista em Terapia Familiar pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Mestre em Teologia Sistemática pela Universidade CTU (EUA) e coordenador do Pólo Formador de Terapia Comunitária do Bom Jardim); Ana Paula Fernandes Viana (Pedagoga, Especialista em Terapia Familiar e Terapeuta Comunitária); Aurilene Xavier de Oliveira (Filósofa, Especialista em Filosofia Clínica, Terapeuta Comunitária e formanda em Psicologia); Frederico Emmanuel Leitão Araújo (Médico Especialista em Psiquiatria); Lucy de Araújo Lopes (Psicóloga com formação em Gestalt Terapia, Psicoterapia Breve e Constelação Familiar. Especialista em Psicologia Transpessoal e Dinâmica Energética do Psiquismo e Terapeuta Comunitária); Maria Gabriela Curubeto Godoy (Médica Especialista em Psiquiatria, Doutoranda em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Ceará); Reni de Araújo Dino (Educador Físico, Especialista em Biodança e Terapeuta Comunitário com Formação em Reike Níveis I e II); Rita de Cácia Soares Faria (Pedagoga, Especialista em Educação Biocêntrica e Terapeuta Renascedora). O curso terá ainda participação especial de Adalberto Barreto, criador da Terapia Comunitária.

Mais informações e inscrições:
Ana Paula Fernandes e Girlyane Oliveira (85) 3497.2176 / (85) 3497.1554 / (85) 8829.4557 / (85) 9619.2844
FAX: (85) 3497.2176
apaula_02@hotmail.com
girlyane@yahoo.com.br

quinta-feira, 2 de abril de 2009

CÚMPLICES COMPULSÓRIOS?

Vanda Claudino Sales
Ambientalista, geógrafa

A legislação ambiental brasileira, através da Portaria 303/2002 do CONAMA, protege dunas fixas, definindo-as como áreas de preservação permanente, nas quais são proibidas atividades que comprometam a integridade do meio natural. Em Fortaleza, existem ainda alguns vestígios de dunas fixas, como no entorno do Rio Cocó.

Em 20 de dezembro passado, uma construtora (por indicação de advogados, omito no momento o nome da construtora; mas pode-se obter essa e outras informações sobre a situação em uma simples e rápida consulta google sob o tema "dunas do Cocó") iniciou aplainamento das dunas do Cocó, com uso de tratores e escavadeiras. Moradores do entorno acionaram a Polícia Ambiental, que atendeu ao chamado, ali constatando ausência de permissão legal para o loteamento que a construtora pretendia iniciar. Na sequência, moradores e entidades ambientalistas formalizaram a denúncia do crime ambiental no Ministério Público Federal, do que resultou a suspensão dos trabalhos por parte do IBAMA e parecer contrário ao loteamento por parte da SEMAM. Dessa vez, e provavelmente em função da obviedade do crime, os órgãos ambientais foram céleres e corretos!. A construtora, no entanto, não parece pretender desistir do loteamento ilegal, pois posteriormente, solicitou à justiça o direito de continuar com o empreendimento. Desde então, diversas atividades (manifestações públicas, organização de abaixo-assinados, visitas às comissões de meio ambiente da Câmara dos Vereadores e dos Deputados) vêm sendo realizadas pelo movimento ecológico, em prol da preservação dessas dunas.

A busca de apoio judicial reafirma a disposição da construtora, de continuar a atividade à revelia da lei. Mas não pára aí: a empresa, em conjunto com outras construtoras, resolveu interpelar judicialmente os moradores, através da citação judicial dos condomínios residenciais que exibiram faixas de protesto contra a destruição, e também o movimento ecológico, através de seis entidades e uma citação pessoal. A citação nominal atinge a advogada e ambientalista Nayana Freitas. As entidades citadas são o "S.O.S. Cocó", a "Frente Popular Ecológica de Fortaleza", o 'Salvem as Dunas do Cocó", o "Movimento dos Conselhos Populares", o Instituto Brasil Verde e a Associação dos Geógrafos Brasileiros - AGB. Cabe aqui ressaltar que nem todas as entidades participaram da mobilização! É o caso do Instituto Brasil Verde e da AGB. A ação judicial, de Interdito probitório, reclama indenização por supostos prejuízos materiais (mas quem paga pela destruição da natureza, sobretudo quando legalmente protegida??). Em adição, há demanda de ação preventiva, no sentido de a justiça proibir o movimento ecológico de doravante expressar quaisquer opiniões públicas acerca do empreendimento.

Trata-se de uma completa inversão de valores! A Constituição Federal
preceitua: é dever da sociedade defender e preservar o meio ambiente. As grandes construtoras pretendem fazer crer - e fazer temer - que o
exercício dessa obrigação e desse direito, ao qual se associa outro,
fundamental, de liberdade de expressão, é prática ilícita ou criminosa! Crime é,na verdade, desobedecer a lei e destruir a natureza, e não a ambas zelar e defender! Não parece admissível que aqueles que destróem a cidade e seu patrimônio possam pretender liberdades e direitos, enquanto quem legitimamente a defende, de forma pacífica, de forma civilizada e nos limites da lei, possa ser criminalizado e perseguido! Pois há perseguição inclusive corporal: colegas ambientalistas estão sendo alscutados em suas comunicações e cerceados em seus passos.

No Brasil, é comum que os que denunciam violência e tráfico de drogas, dentre outros crimes, tornem-se vítimas dos denunciados. Ficamos na expectativa de que a justiça aja no sentido de impedir que os ambientalistas sejam novos sujeitos dessa lógica de barbárie. A ação judicial, pelo absurdo e fragilidade, avaliam nossos advogados, não deve prosperar. No entanto, a história denuncia, os caminhos que a justiça brasileira percorre são com frequência inesperados!

Há que se atentar para o fato de que no Brasil, é considerado cúmplice aquele que não denuncia crimes. A presente situação demonstra que, se não houver reação por parte da sociedade, a tendência é que parcelas cada vez maiores dessa sociedade, diante das ameaças, simplesmente silenciem. Estamos pois sob o risco de nos tornarmos cúmplices compulsórios e, a partir de então, realmente criminosos...

sábado, 28 de março de 2009

Bispos Franceses Falam sobre Excomunhão em Recife

Seguem 4 documentos assinados por bispos católicos de dioceses francesas. Em todas eles, respeito e solidariedade para com mãe e filha. Eis posições mais conforme o Evangelho, expostas por membros da hierarquia da Igreja. Ademir Costa

Documento 1

Carta aberta de Dom Daucourt, bispo de Nanterre, a Dom Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife

Dom Gérard Daucourt, bispo de Nanterre, na França, publicou uma carta aberta a Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, que excomungou a mãe de uma menina de nove anos, grávida de gêmeos por causa de um estupro, e os médicos que realizaram o seu aborto. Segundo Dom Daucourt, Dom Sobrinho "acrescentou dor acima de dor e provocou sofrimento e escândalo em muitas pessoas em todo o mundo".
O texto foi publicado no sítio La Croix.com, 12-03-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

* * * * *

Monsenhor,
Recentemente, o senhor quis declarar publicamente a excomunhão de uma mãe de família. Que tinha feito a sua filha de nove anos, grávida de quatro meses, abortar depois de ter sido estuprada desde os seis anos pelo seu padrasto. O senhor também decidiu publicamente a excomunhão dos médicos que realizaram esse aborto. Reajo publicamente à sua intervenção com esta carta aberta.

Asseguro-lhe desde já: para mim, o aborto é a supressão de uma vida. Sou, portanto, firmemente contrário a ele.

A mãe dessa menina talvez pensou que fosse melhor salvar uma vida do que arriscar a perder três... Talvez, os médicos lhe haviam dito que um pequeno útero de nove anos não se dilata infinitamente... Eu não sei. O que sei é que, nessa tragédia, o senhor acrescentou dor acima de dor e provocou sofrimento e escândalo em muitas pessoas em todo o mundo.

Em uma situação tão dramática, eu acredito firmemente que nós, bispos, pastores na Igreja, devemos, sobretudo, manifestar a bondade de Jesus Cristo, o único e verdadeiro Bom Pastor. Estou certo que o senhor ama essa mãe e que busca homens e mulheres que possam ajudá-la a prosseguir o caminho, sentindo-se amparada em amizade, espiritual e, se necessário, materialmente.

Estou certo de que o senhor quer dar amor a essa menina, marcada para a vida, e à irmã mais velha, deficiente, também ela estuprada. Estou certo que o senhor pediu à administração da prisão para se aproximar do padrasto estuprador para que ele se arrependa, se converta e volte a ser um dia um homem autêntico. Estou certo de que Cristo estima que, se for possível, o senhor fale com os médicos que realizaram esse aborto para que, como os 40 ginecologistas e obstetras que eu encontrei há alguns meses e com os quais não compartilhava todas as posições, a maior parte deles aprecia ser escutado e ouvir pontos de vista diferentes, já que muitas vezes vivem dramas de consciência.

Monsenhor, ajudemo-nos uns aos outros para ser, antes de tudo, homens de esperança em Deus e em todo ser humano!

Tenho relações de amizade e de colaboração com muitos evangélicos que são contrários, como o senhor e eu, ao aborto. Mas não proclamam condenações públicas. Talvez, é uma das razões pelas quais as comunidades evangélicas atraem hoje tantos católicos, particularmente no Brasil. Constato que a opinião pública não entende nada de excomunhão. Ela a percebe como uma condenação das pessoas e não uma proposta de cura e de conversão.

Considero que devemos encontrar outros meios para dizer às nossas comunidades que o comportamento ou as palavras de certos católicos não estão de acordo com o que a Igreja pretende e crê que seja a vontade de Deus.

Não lhe escondo nem que me pergunto também como se pode dizer que o estupro é menos grave do que o aborto que suprime a vida no ventre de uma mãe. Mulheres estupradas se confiaram a mim. Algumas puderam resolver-se e avançar na vida com a lembrança das suas feridas que nunca desaparece completamente. Mas outras, mesmo estando vivas fisicamente, foram mortas no mais profundo do seu ser e não conseguem mais viver. A vida não é apenas física, o senhor bem o sabe.

Não pude obter o texto completo do que o Cardeal Re disse, mas o apoio que – segundo a imprensa – ele lhe deu não muda em nada a minha reação pastoral. Para a clareza das relações entre bispos, envio uma cópia desta carta ao Cardeal Re.

Saúdo-lhe com tristeza, mas também com sentimentos respeitosamente fraternos, assegurando-lhe a minha oração pelo senhor e por aqueles que, de qualquer maneira, foram implicados no drama dessa menina.

Gérard Daucourt
Bispo de Nanterre, França
http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=20663

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Documento 2
Excomunhão. Francis Deniau, bispo de la Nièvre, França, critica arcebispo brasileiro.

"Eu devo dizer ao meu irmão, o bispo de Recife – e ao cardeal que o apoiou – que eu não entendo sua intervenção. Diante de tal drama, diante da ferida de uma criança violada e incapaz, mesmo fisicamente, de levar a termo uma gravidez, havia outra coisa a dizer, e, sobretudo questões a se colocar: como acompanhar, encorajar, permitir sair do horror, reencontrar seu gosto pela vida? Como ajudar a filha e a mãe a se reconstruir?", escreve Francis Deniau, bispo de la Nièvre, França, em artigo que repercutiu internacionalmente.

Eis o artigo.

Fiquei sabendo, como todo o mundo, que a mãe de uma filha de nove anos, grávida de seu padrasto, tinha sido excomungada por seu bispo no Brasil, junto com a equipe médica que procedera ao abortamento de sua filha. Como bispo, eu sou solidário de todos os bispos do mundo. A solidariedade impõe dizer os desacordos pessoais, senão ela não seria cumplicidade. Eu devo dizer ao meu irmão, o bispo de Recife – e ao cardeal que o apoiou – que eu não entendo sua intervenção. Diante de tal drama, diante da ferida de uma criança violada e incapaz, mesmo fisicamente, de levar a termo uma gravidez, havia outra coisa a dizer, e, sobretudo questões a se colocar: como acompanhar, encorajar, permitir sair do horror, reencontrar seu gosto pela vida? Como ajudar a filha e a mãe a se reconstruir? Nós balbuciamos, sobretudo nós homens, e devemos contar com as mulheres para estar lá com mais presença do que com palavras. Mas, palavras de condenação, um apelo à lei, por mais justa que seja: isto é o que não se deve fazer.

Jesus teria dito que a moral é feita para o homem e não o homem para a moral. Ele denunciou a hipocrisia daqueles que impõem pesados fardos sobre os ombros dos outros.

Eu confesso que acompanhei mulheres antes e após uma IVG. Eu creio que a Igreja católica assume sua responsabilidade social insistindo, a tempo e contratempo, no respeito à vida humana “desde a concepção até a morte natural”. Nós faltaríamos à nossa responsabilidade calando tal apelo, que expressa a defesa dos mais pequenos e mais frágeis. Depois disso, trata-se de acompanhar cada pessoa, em situações em que eu não gostaria de estar, e onde cada qual procura fazer o melhor que ele ou ela pode. Deus nos chama a decisões que podem ser exigentes, mas antes ele nos envolve com sua ternura, e ele nos acolhe nas obscuridades e nos dramas da vida. Eu espero dos homens de Igreja, meus irmãos, que eles não utilizem seu nome para condenar pessoas ou encerrá-las em sua culpabilidade.

Francis Deniau, bispo de la Nièvre

http://unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=20631

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Documento 3

Comunicado de Dom Norbert Turini
Cahors, quarta-feira 11 março de 2009
Fonte : site da diocese de Cahors (França)

Após uma série de numerosas reações a respeito da menina brasileira de 9 anos, do aborto por que passou e da excomunhão que seguiu, D. Turini dá seu ponto de vista.

"Uma menina brasileira de nove anos violentada e grávida de gêmeos, uma mãe atormentada, uma condenação, e uma « excomunhão » ! A opinião pública reagiu, e eu compreendo sua emoção. Por que não guardar o silêncio diante de tal tragédia ?

Por que acrescentar severidade a tanto sofrimento ? Muitas pessoa se questionam sobre isso. Defendo e defenderei sempre a dignidade e o respeito à vida desde sua origem até o seu termo, e creio que em todas as circunstâncias a atitude da Igreja deve tirar sua legitimidade da atitude do Cristo. Assim sendo, o amor e a misericórdia devem sempre falar mais forte, conforme os evangelhos, do que a condenação e a exclusão. Basta abrir os evangelhos para se convencer disso !

Qual será o futuro dessa mulher, dessa menininha, após tal decisão [ a excomunhão lançada] ? Quem vai acompnhá-las ? Em consciência e por fidelidade à Boa Nova devemos nos interrogar a respeito. Por ora, gostaria de dizer a essa mulher e à sua filha que elas são e sempre serão amadas pelo Deus de Jesus Cristo que nós chamamos de Pai Nosso.

+Norbert TURINI, bispo de Cahors

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DOCUMENTO N. 4

Comunicado da Missão de França
Paris, quarta-feira 11 de março de 2009
Fonte : Missão de França

O bispo da Missão de França e seu Conselho associam-se aos protestos de numerosos católicos contra a decisão do arcebispo de Recife, no Brasil, de excomungar uma mãe e dos médicos que tomaram a decisão pelo aborto de uma menininha de 9 anos violentada por seu padrasto.

É certo que o aborto é um ato mortífero ; ele inscreve na carne da quelas que por ele passaram ferimentos que talvez nunca terminem. Mas como é que se pode, diante de tal drama, a Igreja se manifeste para julgar e condenar, e não para manifestar sua compaixão e ajudar as pessoas envolvidas a se reconduzirem para a vida ? Como e por que ignorar a prática pastoral da Igreja católica que é a de ouvir as pessoas em dificuldade, de acompanhá-las e, em matéria de moral. de levar em conta « o mal menor », particularmente em situações dramáticas e em casos extremos ? Quando se invoca a « lei de Deus», como esquecer a ternura de Jesus : « sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso » ? Essa decisão abrupta de excomungar é inaceitável.

Ela não leva em conta nem o drama vivido nem o risco físico e moral que a menina estava correndo. Queremos dizer com todas as nossa forças, neste mundo tão sofrido, que é preciso que façamos surgir atitudes de esperança, em vez de se fechar em condenações que são traições dos caminhos compassivos do amor misericordioso.

A todos os que estão perturbados por tal medida [de excomunhão], queremos dizer com firmeza que não nos reconhecemos nela, e requeremos que ela seja suprimida o mais rapidamente possível.

Dom Yves Patenôtre, bispo da Missão de França e seu Conselho.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Hoje não tenho mais esses sonhos, diz o cardeal

Dom Pedro Casaldáliga*

O cardeal Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse pela raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensam com mais amplidão; que desse ânimos, especialmente, àqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos. Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus.

Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a “outra Igreja possível”, ao serviço do “outro Mundo possível”. E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; o tem demonstrado.

Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, “é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade”; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos...

A grande crise econômica atual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: trata-se de salvar o Sistema ou se trata de salvar a Humanidade? A grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.

Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente “o sonho de Luther King”, querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.

Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC...). Comprometemo-nos a viver uma “ecologia profunda e integral”, propiciando uma política agrário-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de “alta intensidade”.

Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. “Meu Deus, me deixa ver a Deus?”. Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de discriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: “Não será assim entre vocês” (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anúncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela “expressão mais alta do amor fraterno” (Pio XI).

Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. «Ainda cantamos, ainda sonhamos». Nós nos atemos à palavra de Jesus: “Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda” (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Fóruns Sociais, a Via Campesina, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afras e, em todo o caso, mais uma vez e sempre, “eu me atenho ao dito: a Esperança”.

Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: “A velhice é uma espécie de pós-guerra”; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.

* Catalão de Barcelona, onde nasceu em 1928, a 16 de fevereiro, Casaldáliga ingressou na Ordem Claretiana, consagrada às missões. Foi ordenado sacerdote em 1943. Impregnado da espiritualidade dos Cursilhos de Cristandade, veio para o Brasil e, em 1968, mergulhou na Amazônia. Em 1971, nomearam-no bispo de uma prelazia amazônica, à beira do suntuoso rio Araguaia: São Félix do Araguaia. Adotou como lema que haveria de nortear literalmente sua atividade pastoral: "Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar". No dedo, como insígnia episcopal, um anel de tucum, que se tornou símbolo da espiritualidade dos adeptos da Teologia da Libertação.
Fonte: www.anote.org.br [26/03/2009]

sábado, 21 de março de 2009

O viver melhor ou o bem viver?

Leonardo Boff
Teólogo

Na ideologia dominante, todo mundo quer viver melhor e desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Comumente associa esta qualidade de vida ao Produto Interno Bruto de cada pais. O PIB representa todas as riquezas materiais que um pais produz. Se este é o critério, então o países melhor colocados são os Estados Unidos, seguidos do Japão, Alemanha, Suecia e outros. Este PIB é uma medida inventada pelo capitalismo para estimular a produção crescente de bens materiais a serem consumidos.

Nos últimos anos, dado o crescimento da pobreza e da urbanização favelizada do mundo e até por um senso de decência, a ONU introduziu a categoria IDH, o “Índice de Desenvolvimento Humano”. Nele se elencam valores intangíveis como saúde, educação, igualdade social, cuidado para com a natureza, equidade de gênero e outros. Enriqueceu o sentido de “qualidade de vida” que era entendido de forma muito materialista: goza de boa qualidade de vida quem mais e melhor consome.
Consoante o IDH a pequena Cuba apresenta-se melhor situada que os EUA, embora com um PIB comparativamente ínfimo.

Acima de todos os paises está o Butão, esprimido entre a China e Índia aos pés do Himalaia, muito pobre materialmente mas que estatuiu oficialmente o “Indice de Felicidade Interna Bruta”. Este não é medido por critérios quantitativos mas qualitativos, como boa governança das autoridades, eqüitativa distribuição dos excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal e da venda de energia para a Índia, boa saúde e educação e especialmente bom nível de cooperação de todos para garantir a paz social.

Nas tradições indígenas de Abya Yala, nome para o nosso Continente indioamericano ao invés de “viver melhor” se fala em “bem viver”. Esta categoria entrou nas constituições da Bolívia e do Equador como o objetivo social a ser perseguido pelo Estado e por toda a sociedade.

O “viver melhor” supõe uma ética do progresso ilimitado e nos incita a uma competição com os outros para criar mais e mais condições para “viver melhor”. Entretanto para que alguns pudessem “viver melhor” milhões e milhões têm e tiveram que “viver mal”. É a contradição capitalista.

Contrariamente, o “bem viver” visa a uma ética da suficiência para toda a comunidade e não apenas para o indivíduo. O “bem viver” supõe uma visão holística e integradora do ser humano inserido na grande comunidade terrenal que inclui além do ser humano, o ar, a água, os solos, as montanhas, as árvores e os animais; é estar em profunda comunhão com a Pacha Mama (Terra), com as energias do universo e com Deus.

A preocupação central não é acumular. De mais a mais, a Mãe Terra nos fornece tudo que precisamos. Nosso trabalho supre o que ele não nos pode dar ou a ajudamos a produzir o suficiente e decente para todos, também para os animais e as plantas. “Bem viver” é estar em permanente harmonia com o todo, celebrando os ritos sagrados que continuiamente renovam a conexão cósmica e com Deus.

O “bem viver” nos convida a não consumir mais do que o ecossistema pode suportar, a evitar a produção de resíduos que não podemos absorver com segurança e nos incita a reutilizar e reciclar tudo o que tivermos usado. Será um consumo reciclável e frugal. Então não haverá escassez.

Nesta época de busca de novos caminhos para a humanidade a idéia do “bem viver” tem muito a nos ensinar.

II SEMINÁRIO BRASILEIRO CONTRA O RACISMO AMBIENTAL

Chamamos de Racismo Ambiental às injustiças sociais e ambientais que recaem de forma implacável sobre grupos étnicos vulneráveis e outras comunidades, discriminadas por sua origem ou cor. (Tânia Pacheco [1])

O debate sobre Racismo Ambiental no Brasil emerge a partir do acirramento dos conflitos socioambientais gerados pelas políticas de desenvolvimento econômico hegemônicas, em nosso País e no mundo. Os movimentos sociais, organizações da sociedade civil, críticos e intelectuais denunciam que tal modelo de desenvolvimento tem historicamente se baseado na sobreexploração dos bens ambientais e de grupos sociais considerados inferiores. É o caso das populações pobres dos centros urbanos, das populações negras, dos povos indígenas, de ribeirinhos, pescadores, quilombolas e outras comunidades cujos modos de vida e trabalho estão diretamente associados aos ambientes naturais, sobre os quais são moldadas suas culturas, tradições e demais dimensões de suas próprias existências.

Os impactos provocados pelas formas de ocupação do nosso território, marcados por grandes projetos econômicos como a siderurgia, as monoculturas, a carcinicultura, as barragens, as hidrelétricas e termelétricas, e o turismo predador, dentre outros, colocam em risco a continuidade do planeta e a soberania dos povos. Em nome da ganância, de uma acumulação centralizadora e concentradora de riquezas, produze-se e agrava-se cada vez mais a pobreza e as desigualdades no mundo.

É nesse contexto que, sob o tema Racismo Ambiental - disputa pelo território e capitalismo: desenvolvimento para quê e para quem, o Grupo de Trabalho (GT) de Combate ao Racismo Ambiental, criado na Rede Brasileira de Justiça Ambiental em 2005, realizará nos próximos dias 23 a 25 de março o II Seminário Brasileiro contra o Racismo Ambiental. Os dois primeiros dias serão sediados em Fortaleza, na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, e o terceiro no município de São Gonçalo do Amarante, na comunidade do Povo Indígena Anacé, que vivencia múltiplos conflitos com a instalação e o incremento do Complexo Industrial Portuário do Pecém.

Na programação ganharão destaque os debates sobre disputa pelo território e os conflitos socioambientais no Brasil, incluindo os conflitos urbanos; os desafios para os sujeitos sociais no enfrentamento do Racismo Ambiental, e as estratégias de resistência da sociedade civil organizada. Participam do Seminário representantes de povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, ribeirinhos, comunidades urbanas, além de várias outras organizações, movimentos sociais e universidades de todas as regiões do Brasil.

Essa reunião de diferentes sujeitos é uma estratégia utilizada pelo GT de Combate ao Racismo Ambiental desde o início de sua atuação. Assim, o II SBCRA terá como característica dar continuidade e ampliar as articulações, diálogos estratégicos e parcerias entre comunidades atingidas pelo Racismo Ambiental, movimentos sociais, organizações não-governamentais, acadêmicos e pesquisadores, como vem acontecendo desde o I Seminário, realizado em 2005, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Rio de Janeiro. Além de dar visibilidade ao tema, a idéia envolve ainda promover trocas de saberes, conhecimentos e experiências de resistências às injustiças socioambientais, incentivando estudantes, educadores e lideranças de movimentos sociais a desenvolverem ações, estudos e pesquisas sobre o tema central do Seminário.

Entre os principais palestrantes e debatedores de outros estados presentes ao II Seminário, destacamos José Augusto Laranjeiras Sampaio, antropólogo e coordenador executivo da Anaí - Associação Nacional de Ação Indigenista; Crispim Santos, quilombola de Santo Francisco do Paraguaçu, Bahia (sob ameaça de morte por sua luta); Maria José Honorato, da Comissão Pastoral da Pesca da Bahia. E ainda: Álvaro de Angelis, de Goiás; Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio, da Universidade Federal de São Carlos; Nahyda Franca e Itamar Silva, da ONG Ibase, do Rio de Janeiro; Kika Bessen, ativista do Movimento Negro de Cidade Tiradentes, São Paulo; José Cardoso, Articulador do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis; Zoraide Vilasboas, que luta contra a poluição por minério de urânio em Caetité, Bahia; Ricardo Álvares, do Grupo de Trabalho sobre Regularização de Territórios Quilombolas de Minas Gerais; Judith Vieira, representante da ONG Terra de Direitos no Pará; Marizélia Lopes, Nega, da Ilha da Maré; Mayron Régis, do Fórum Carajás; e Angelina de Carvalho Pereira, do Movimento de Mulheres Camponesas, do Rio Grande do Sul.

Os conflitos causados por Racismo Ambiental no Ceará serão denunciados entre outros pelo Professor Jeovah Meireles (da UFC), por Meire Coelho e Francisca Sena (INEGRA), João do Cumbe (REALCE), Ceiça Pitaguary (APOINME - Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), Ireuda Ferreira Tavares (Comunidade de Novo Maracanaú), Soraya Vanini (Frente Cearense por uma Nova Cultura da Água), Jefferson Souza (Rede Tucum de Turismo Comunitário), Preto Zezé (CUFA), Cláudio Silva Filho (RENAP), Ana Maria Félix (Assentamento Maceió) e Arnaldo Fernandes (Frente Popular Ecológica de Fortaleza).

Nessa segunda versão, o encontro está sendo organizado pelas entidades que até o momento compõem o GT de Combate ao Racismo Ambiental no Ceará: Núcleo Tramas e Departamento de Geografia, ambos da UFC; Instituto Terramar; Central Única das Favelas; e Fórum em Defesa da Zona Costeira do Ceará. Outra particularidade deste II Seminário BCRA é que ele ocorrerá de forma articulada com o III Encontro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, que será realizado no período de 26 a 28 de março no SESC Iparana, no município de Caucaia.

Contatos: Cristiane Faustino – (85) 88377665
Luciana Nóbrega – (85) 88521420
Luciana Queiroz – (85) 86504880

[1] Coordenadora do GT de Combate ao Racismo Ambiental/RBJA.