quarta-feira, 2 de julho de 2008

DÁ PARA ASSINAR ESTA PETIÇÃO DE DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO?

Companheiros, EcoAmigos, irmãos de caminhada,

Não dá para assinar esta de descriminalização do aborto.

Quando a vida não tem valor, o que mais é valor?

Perfilo-me ao lado dos que primam pela vida e argumentam que todos os meios devem ser usados para salvá-la. Não por questão religiosa, mas por argumento laico mesmo. Apenas racional. Se defendemos a vida do mico leão dourado, da ararinha azul, da Terra, por que iríamos desprezar a vida de UM ser humano? Este é o fundamento principal de minha posição. Todos os argumentos a favor do abordo caem frente a este, porque secundários.

Ao defender o abordo (feito por baixo dos panos ou sob o amparo da descriminalização), as pessoas se esquecem de pontos básicos:

  • a vida em primeiro lugar:
  • a pessoa pode ser educada para conter seus impulsos e usar a faculdade de fecundar na hora em que tenha condições de criar o resultado de seus atos (a cultura capitalista mercantilista de hoje prega o prazer exacerbado, para vender mercadorias e "serviços");
  • há meios para evitar a concepção (se falta acesso a eles, lutemos pelo acesso, não pela eliminação da vida concebida);
  • homem e mulher são responsáveis pela concepção. Exceção: no caso de estupro, o homem é responsável pela concepção, mas a mulher, não. Neste caso, como em regra o homem se esconde e a mulher fica só, a legislação já permite o aborto (embora, ainda aqui, haja a eliminação de uma pessoa);
  • discutir sobre o momento em que o ovo se torna pessoa é escamotear a questão. O ovo (óvulo + espermatozóide, para quem esqueceu) é uma pessoa com potencial para ser um homem/mulher de bem ou alguém medíocre ou até um maníaco). Este potencial está ali, após a concepção, da mesma forma que está no recém-nascido. Se a semente for aguada (condições familiares, sociais, educacionais...) a pessoa desabrocha. Se não forem dadas as condições, a pessoa não desabrocha: nem no dia da concepção nem aos 20 anos, ou mais, depois da concepção.

Precisamos garantir condições para a vida desabrochar, "da concepção à morte natural". Repito: sem que aqui haja qualquer resquício de fé. Esta conclusão é raciocínio humano (filosófico, se quiser) puro. É este raciocínio que fundamenta nossa luta socioambiental, nosso ideal de uma sociedade igualitária. Ou é só a luta de classe? Ou é a campanha eleitoral? Se os motivos forem menores, um dia você poderá se decepcionar com eles e abandonar a luta, da mesma forma que esquerdistas de ontem caíram fora do barco e se tornaram os mais ferrenhos reacionários (kkk). Ou você não conhece exemplos desses desertores?

Um abraço pela vida!

Ademir Costa

Jornalista Amigo da Criança, membro da ONG Movimento Proparque

MULHERES, CHEGA DE HIPOCRISIA!

Por
Ana Echevenguá

Sempre me declarei apaixonada pelas Mulheres. Nós somos únicas, cheias de vida e de vontade de assumir responsabilidades e de abraçar causas justas. Conseguimos atuar até em três jornadas de trabalho, diárias e exaustivas. E ainda vamos pra cama, no final do dia, cheias de amor pra dar.

Somos tão especiais que fomos agraciadas com o direito de gerar novas vidas, à nossa imagem e semelhança. E com o direito de escolha do momento certo para isso ocorrer. Movidas pelo instinto maternal, após a fecundação, viramos tricoteiras, costureiras, arquitetas... no preparo do ninho do filho que vai chegar.

Se o pai dos nossos filhos foge da responsabilidade de sustentá-los, vamos à luta. Encontramos fórmulas – nada mágicas – de fazer dinheiro para garantir o pagamento das despesas da prole.

Nem tudo são flores, infelizmente...

Dito isto, pergunto: alguém saberia precisar quando começou a ser difundida esta idéia absurda de que o Aborto é um direito buscado/sonhado/almejado pela Mulher?

Os movimentos pró-Aborto oferecem à Mulher o direito de matar seu filho antes do parto e de carregar – sozinha - na mente e no coração, as seqüelas deste crime. Com certeza, quem defende esta causa:

- ignora os direitos constitucionais da Mulher e de seus filhos;

- não prestigia as mulheres e desconhece sua estrutura física e psicológica;

- está omitindo os efeitos nefastos do Aborto;

- ou está movido por razões mercantilistas porque os procedimentos (e medicamentos) que envolvem este crime é lucrativo para vários filões do mercado: "1) GRUPOS DE INTERESSES: a) os que comercializam tecidos humanos de fetos abortados. b) interessados em transplantes de tecidos e pesquisas com embriões humanos. c) defensores da inseminação artificial. d) fabricantes de cosméticos e sabonetes; e) outros -- 2) COMÉRCIO: TABELA DE PREÇO DE EMBRIÕES". Fonte: http://www.providafamilia.org/.

Mulheres, até quando vamos suportar tanta hipocrisia quanto o assunto é mulher???

Chegou a hora de abrirmos os olhos e de lutarmos pelos nossos direitos! Vocês precisam saber que:

- nenhuma regra brasileira garante a alguém o direito de matar outra pessoa. Não há pena de morte no Brasil;

- qualquer projeto de lei (inclusive o malfadado 1.135/91) que pretenda legalizar o Aborto no Brasil, é uma tentativa de busca de permissão para matar. E matar alguém é crime segundo o Código Penal vigente.

- à luz do nosso direito pátrio, o PL 1.135/91 é inconstitucional. A inviolabilidade do direito à vida está declarada no artigo 5o. da Constituição Federal. Se esta garante o direito à vida, este direito só pode ser atacado por Emenda Constitucional.

Além disso, aqui, nenhum aspecto, legal, político, moral ou ético, justifica a permissão para matar nossos filhos, que têm os seus direitos legalmente garantidos desde a concepção.

Se o referido PL visa à garantia do bem-estar e da proteção da saúde da Mulher, ele merece arquivamento. E seus mentores e adeptos deveriam passar a lutar pelo efetivo cumprimento da Constituição Federal em favor da Mulher e dos seus filhos.

Segundo Frank Pavone, presidente da organização americana Priests for Life, garantir à Mulher o direito ao Aborto não implica conceder a ela o "direito de escolha". A Mulher somente opta pelo Aborto quando não tem outra alternativa. "A Mulher se sente rejeitada, confusa, com medo, sozinha, incapaz de lidar com a gravidez - e, no meio disto tudo, a sociedade diz: Nós eliminaremos o seu problema, eliminando o seu bebê ".

No Brasil, ainda que o Aborto se torne legal, ele não será seguro nem fácil para as mulheres pobres e excluídas. Ou alguém desconhece o tratamento dispensado aos usuários do SUS?

Ana Echevenguá
Coordenadora do Programa Eco&ação

http://www.ecoeacao.com.br/ - (48) 84014526 - Florianópolis, SC.

Mulher, você quer matar seu filho???

Por
Ana Echevenguá

Claro que não! O instinto maternal sempre fala mais alto! E envolve a mulher-mãe num sistema integrado que estabelece laços afetivos entre ela e o filho.

Se isso é verdade por que o Brasil quer legalizar o aborto?

João Baptista Herkenhoff, juiz e professor, ao concluir seu artigo "Aborto: o legal e o existencial", alega que, em razão deste conteúdo existencial, o aborto carece de tratamento jurídico diferenciado. Para tanto, "um conjunto de medidas sociais, pedagógicas, psicológicas, econômicas, médicas deveria proteger o direito de nascer". Afirma ainda que "a sociedade tem o dever de socorrer com empenho e eficácia a mulher grávida; todo o esforço social deve ser desenvolvido para que a mulher não seja compelida ao aborto".

Grande mensagem nessas palavras! Quantas pessoas já tiveram a coragem de dizer/escrever/expor que as mulheres são compelidas ao aborto? Raras.

Nesse Brasil em que uma bolsa-família* é considerada uma maravilha (rima de um jingle da campanha Lulinha paz-e-amor), as mulheres são "pressionadas" pela ignorância, pela pobreza, pela miséria, pelo macho que a emprenhou, pela mídia que vulgariza o aborto como solução contraceptiva ideal - a matar seu filho antes de vê-lo fora do útero. E, se cruzarmos os braços, essas mães serão induzidas a matar seus filhos por uma nova lei, absurda e inconstitucional, cuja aprovação está nas mãos dos - Eleitos por Nós -, em Brasília.

Mas, afinal, o que é este tal de aborto? A mulher fica grávida e, por motivos vários, precisa interromper o processo de gestação, dando "um jeito" na gravidez indesejada. Esse jeito (aborto) nada mais é do que matar o próprio filho antes do parto.

Então por que não se chama isso de homicídio, de assassinato..? Afinal, isso é matar alguém, é crime contra a vida? Sim. Previsto no Código Penal.

Morto o filho, foi eliminado o problema? No meu entender, não. E se criaram vários outros. As seqüelas da morte de um filho – de qualquer idade, de qualquer tamanho - acompanham a mulher-mãe por toda a vida. Ainda que ela não esteja atrás das grades de uma prisão convencional, a "masmorra da consciência" é a punição constante, martelando em sua cabeça a cada minuto.

Mesmo que não tenha pegado no colo, sentido o cheirinho, o calor da pele, um filho deixa marcas na mãe; deixa saudade... Para Chico Buarque, saudade "é arrumar o quarto do filho que já morreu".

De "masmorra" e de "saudade" eu posso falar porque matei uma filha dando a ela um medicamento errado. Acidente? Negligência? Obra do destino? Não importa a causa; o resultado fala mais alto e não cala com o passar do tempo.

Gente!, as mulheres do Brasil não precisam de leis que as induzam a matar seus filhos. Precisam de educação para o sexo seguro porque sexo seguro é bom, é saudável e deve ser praticado com freqüência (apesar de todas as contrariedades hipócritas reinantes). E de respaldo estatal para garantir aos seus filhos todos os direitos elencados no artigo 227 da Constituição Federal: "o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".

Claro que a concretização desses direitos não se consegue com a falaciosa bolsa-família (cujo valor é de R$15,00 a 95,00, de acordo com a renda per capita e o número de filhos). Tampouco é um conto de fadas: todos os direitos que elenquei foram transcritos do texto constitucional que não saiu do papel ainda.

E não sairá enquanto estivermos nas mãos de governantes que apresentam alternativas homicidas para a resolução dos nossos problemas.

terça-feira, 20 de maio de 2008

SECRETÁRIA DO MEIO AMBIENTE DA PREFEITURA DE FORTALEZA MOVE PROCESSO CONTRA AMBIENTALISTA

Por
João Alfredo Melo Telles
Ambientalista. Assessor do Greenpeace. Ex-deputado federal pelo Ceará. Apoiador de primeira hora da então candidata Luizianne Lins, hoje prefeita de Fortaleza.
Antes do PT, hoje milita no Psol.

A seguir, transcrição ipsis literis de e-mail que recebi:

Prezados Companheir@s de luta e de paz das boas causas socioambientais,
O motivo dessa correspondência é lhes informar que ESTOU SENDO PROCESSADO PELA SECRETÁRIA DO MEIO AMBIENTE DA PREFEITURA DE FORTALEZA, SRA. DANIELA VALENTE MARTINS, em vista da luta do movimento ecológico de minha cidade, em especial, o Movimento SOS Cocó, contra a construção da Torre Empresarial Iguatemi, cujo proprietário é o Senador Tasso Jereissati, às margens do Rio Cocó, obra que obteve o licenciamento ambiental por parte da Prefeitura Municipal de Fortaleza, cuja prefeita é a Sra. Luizianne Lins, que tem como Secretária do Meio Ambiente, a Sra. Daniela Valente Martins.
Para quem não conhece a história, é preciso lembrar que, contra a construção do referido prédio - devidamente licenciado, repita-se, pela Prefeitura de Fortaleza - se insurgiram não só as pessoas e entidades dos movimentos ecológicos, sociais e socioambientais de Fortaleza (como o SOS Cocó, a Frente Popular Ecológica, a AGB, a Crítica Radical etc.), mas também o Ministério Público Estadual e a Procuradoria da República, os quais, cada um de sua parte, ajuizaram Ações Civis Públicas contra o licenciamento concedido ao empreendimento. As razões que fundamentam essas ações se encontram nos fatos do prédio estar sendo construido em área de preservação permanente (seja porque é margem do rio, seja porque é na área de manguezal); não foi realizado o devido estudo prévio de impacto ambiental; nem tampouco consultado o Conselho Municipal do Meio Ambiente.
Essa é a primeira fundamentação da Ação de Pedido de Explicações que é ajuizada pela Senhora Secretária, com a finalidade, como ela mesmo afirma na petição assinada por seus advogados (Alexandre Rodrigues de Albuquerque, Rodrigo Macêdo de Carvalho e Rui Barros Leal Farias), para "aparelhar o futuro e eventual ajuizamento de ação penal condenatória, nos casos de crimes contra a honra".
Ali, sou acusado de escrever um artigo, intitulado "SOS Cocó: vitórias e perspectivas", onde afirmo que a licença ambiental da Torre do Iguatemi foi dada contra o Direito (artigo esse, inclusive, publicado no jornal O Povo e que tem os mesmos argumentos das ações do Ministério Público).
Além do mais, como suposto "comandante" do SOS Cocó, sou responsabilizado por panfletos e artigos veiculados no blog do movimento, como o que noticiou a reunião no Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMAM), em que o ex-secretário Pedro Ivo Batista afirmara, por telefone, não haver sido concedida, em sua gestão, a licença para as obras do prédio. Fato que é desmentido na ação, quando a secretária, por seus advogados, afirma que "o procedimento que redundou na concessão da licença ambiental questionada foi iniciado e completamente instruido na gestão do antigo titular (Pedro Ivo) da pasta municipal que hoje ocupa a requerente" (Daniela).
Na parte final, a senhora secretária, por seus advogados, pede que eu apresente minhas explicações, dizendo se confirmo ou não as acusações contidas na nota (...) e pede a entrega dos autos à suplicante (Daniele) a fim de que possa tomar as providências cíveis e penais cabíveis.

domingo, 18 de maio de 2008

Nota sobre a demissão da Ministra Marina Silva

A Presidência da República e seu Ministério estão em débito com a nação brasileira e com os movimentos sociais que defendem nosso patrimônio natural e a equanimidade na promoção da qualidade de vida e da saúde.

Do
CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE

Em sua 185ª. Reunião Ordinária, em 14 de maio de 2008, o Conselho Nacional de Saúde – órgão de representação do controle social, de caráter deliberativo, fiscalizador e formulador de políticas, vem tornar pública a sua preocupação com os rumos da política de crescimento e desenvolvimento econômico do Brasil, por seus impactos diretos e indiretos sobre a saúde e a qualidade de vida da população, a partir da demissão da Ministra do Meio Ambiente Marina Silva.

Reconhecemos o esforço de sua gestão no sentido de superar a abordagem setorializada das questões ambientais e de construir a necessária transversalidade nas políticas de desenvolvimento, que traria repercussões positivas também sobre a saúde. Entretanto, muitas têm sido as decisões do governo Lula que vêm constrangendo a perspectiva da sustentabilidade ambiental e social, como a progressiva liberação de transgênicos, especialmente a soja e o milho; a transposição do São Francisco; o licenciamento das usinas hidrelétricas do Complexo do Rio Madeira; o avanço do agronegócio da soja, da cana, do eucalipto, das frutas e da pecuária sobre o cerrado, o semi-árido e a floresta amazônica; a destruição dos manguezais pela carcinicultura; a atração de investimentos industriais nocivos ao ambiente e à saúde da população, como a siderurgia e o papel, entre outros.

É preciso reafirmar o artigo 200 da Constituição Federal do Brasil: o direito à saúde deve ser garantido pelo Estado mediante políticas sociais e econômicas que visem a redução do risco de doença e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Estratégias de desenvolvimento como as acima elencadas, ao consumirem intensivamente recursos naturais; gerarem contaminação do solo, da água, do ar e dos alimentos; transformar profundamente territórios de vida de comunidades humanas, têm trazido impactos negativos sobre a saúde da população. Ameaças à segurança alimentar, re-emergência e difusão de doenças infecto-parasitárias; contaminação de trabalhadores e moradores por produtos químicos como os agrotóxicos; elevação da violência, acidentes e traumas, além das doenças sexualmente transmissíveis; entre muitos outros, são problemas que ameaçam a saúde especialmente de comunidades tradicionais, como ribeirinhos, quilombolas, indígenas, e também camponeses e trabalhadores pobres das periferias urbanas, grupos sociais mais vulneráveis.

Alertamos que este não é o caminho de desenvolvimento que interessa à saúde da população brasileira: a Presidência da República e seu Ministério estão em débito com a nação brasileira e com os movimentos sociais que defendem nosso patrimônio natural e a equanimidade na promoção da qualidade de vida e da saúde. Contamos com a reversão destes rumos.
Brasília, 14 de maio de 2007

Conselho Nacional de Saúde

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A BUSCA DA RIQUEZA MATERIAL OU DE BENS IMATERIAIS: TER OU SER?

Por

José Lemos

Doutor e Pós-Doutor em Economia Rural e Ambiental pela University of Califórnia, Riverside, USA.

Professor Associado na Universidade Federal do Ceará.

lemos@ufc.br.


O último artigo de Leonardo Boff, que o Jornal “O Povo” de Fortaleza reproduz às sextas-feiras, cujo titulo instigante era “Quanto custa um pôr do sol?”, serve para refletir mais ainda acerca do mundo em que vivemos, e sobre a sociedade que construímos. A pergunta, segundo Boff, teria sido feita por um filho que foi convidado pelo pai americano, muito rico, para assistir a um pôr de sol nas Colinas de Castelgandolfo, em Roma.


Vivemos num mundo em que quase tudo se tornou mercantilizado. Até as relações pessoais passaram a ter a conotação de negócios rentáveis. Muitas pessoas, ao decidirem partilhar vida com outro(a), antes de qualquer decisão mais açodada ancorada em paixões e amores, fazem as contas dos bens materiais possuídos por cada parceiro e o que poderão amealhar quando estiverem juntos. Assim, fica assegurado previamente, que, havendo o provável desenlace no relacionamento, a partilha de bens já está garantida, independentemente dos estragos que a separação possa provocar nas emoções e nos sentimentos de ambos.


Há pessoas que passam todo o seu tempo arquitetando como agregar mais poder e mais riqueza ao seu patrimônio. Para atingir esses objetivos, não vislumbram limites éticos ou de qualquer ordem. Todos os meios justificam os fins, que são os incrementos de mais poder e mais riqueza. Para tanto, são capazes de caluniar desafetos, de bajular, e de estar sempre perto de quem detém poder, para tirar algum proveito. Impregnam-se como parasitas sugadoras na fonte poderosa da ocasião, fazem tudo para agradá-la, para, a partir desses mimos, conseguirem os seus próprios objetivos que são ter mais riqueza e, claro, acesso ao poder. Por essas vias constroem impérios e hostilizam aqueles que não pactuam dos seus métodos, ou que interpuserem-se nos projetos pessoais de grandeza ilimitada.


A propósito, no Relatório de 1994 da Organização das Nações Unidas (ONU), encontramos seguinte passagem: “a acumulação de riqueza não é necessária para o preenchimento de algumas das escolhas do ser humano... Os indivíduos e a sociedade fazem muitas escolhas que não precisam da riqueza para concretizá-las. Uma sociedade não precisa ser rica para estar habilitada a um vida democrática. Uma família não precisa ser rica para respeitar os direitos de cada um dos seus membros. Uma Nação não precisa ser rica para tratar homens e mulheres de forma eqüitativa. Tradições sociais e culturais, de grande valor, podem ser mantidas, e efetivamente o são, em todos os níveis de renda. A riqueza de uma cultura pode ser independente da riqueza material do seu povo.”


No livro, “O Ponto de Mutação”, Capra assegura que a busca incessante da riqueza induz as pessoas a extrapolarem princípios éticos e a solaparem direitos alheios. A riqueza representa uma maior capacidade de consumo e de manipulação de todos os ativos, inclusive os morais. A obsessão de poder e de ter faz as pessoas acreditarem que estão acima das leis e dos fundamentos da convivência social. Cultuam a personalidade, chegam a imaginar que podem estender esse culto para além desta vida. Pessoas que tem o poder e a riqueza como projetos de vida, em geral, não definem limites para as suas megalomanias.


A sociedade de consumo contribui para isso ao reverenciar o ter e ao negligenciar o ser. São de menos importância a posse do conhecimento cientifico, a sabedoria popular, a contemplação de belezas naturais, o canto livre dos pássaros, a simplicidade do aroma da chuva agindo como “alcoviteira” para que a terra possa ser penetrada, fecundada, emprenhada e parir rebentos. Não é reconhecida, porque não rende dinheiro, a convivência respeitosa com animais e plantas. Destruí-los e fazer lucro com eles é mais interessante. É ultrapassado ter alguém para amar, partilhar angústias e alegrias, movido apenas pelo sentimento do companheirismo e não das posses materiais. Mas estes são prazeres que a busca obsessiva da riqueza material e do poder destroem. Ricos e poderosos não têm tempo para usufruir a riqueza amealhada. Agregam fortunas, poder, morrem e deixam herdeiros engalfinhando-se pelo espólio que acumularam em vida, quase sempre, à custa de muito sofrimento e dor de terceiros. Mas impõem com o dinheiro, ferro e sangue alheios os seus nomes em ruas, fachadas de prédios públicos, avenidas, praças e em mausoléus suntuosos, onde esperam jazer e ser reverenciados depois de mortos. São verdadeiros estorvos sociais, mas conseguem influenciar pessoas e por isso se dão bem. Ao seu modo, evidentemente.

Publicação simultânea em O Imparcial, de São Luís (MA), 12.04.08

sábado, 5 de abril de 2008

Assimetria na Escolaridade Provoca Distribuição Desigual da Renda

Por
José Lemos
Engenheiro Agrônomo. Educador. Professor Associado na Universidade Federal do Ceará.
lemos@ufc.br.


Há discussões recorrentes que tentam relacionar o impacto da escolaridade média sobre a renda. Sabe-se que a educação é insumo essencial para que haja desenvolvimento econômico. Sem educação é impossível uma Nação almejar a desenvolver-se e, no caso das economias mais atrasadas, a retirar um contingente significativo da sua população do estáagio de exclusão social em que se encontra. O crescimento da riqueza é condição necessária para promover inclusão, ainda que não suficiente. Apenas o crescimento do produto agregado não será capaz de irradiar progresso num ambiente em que as pessoas têm baixos níveis de escolaridade, são desinformadas, ou são analfabetas. Nestes casos, pode haver crescimento da renda sem a contrapartida da melhoria do nível de bem-estar geral, e a apropriação dessa renda será feita por um segmento restrito da população, ou de forma assimétrica, como aconteceu no Brasil na época do “milagre econômico” dos anos 1970.
Países como Hong Kong, Singapura e Coréia do Sul, que estão no topo do ranking dos países do Terceiro Mundo com os melhores padrões de desenvolvimento, construíram o seu progresso com eqüidade, fazendo maciços investimentos na educação da sua gente. Esses países erradicaram o analfabetismo, como se depreende de estatísticas recentes publicadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), e conseguiram elevar o PIB per capita sem grandes disparidades entre ricos e pobres. São países com níveis de distribuição de renda bem superiores àqueles dos países da América Latina, mesmo nos melhores posicionados no ranking da ONU, como Argentina, Chile, Costa Rica, Uruguai e México.
O Brasil é um dos países que apresentam um dos maiores padrões de desigualdade na apropriação e distribuição da renda e da riqueza no mundo. Com efeito, dos 177 países para os quais o relatório da ONU de 2007 disponibiliza informações, em apenas sete (Colômbia, Bolívia, Haiti, Botswana, Moldovia, Republica Central Africana e Lesotto) o nível de concentração da renda é pior do que a do Brasil. Em todos esses, os padrões de analfabetismo e de escolaridade são bem piores do que os brasileiros.
No Brasil, o percentual da população maior de dez anos analfabeta em 2006 era de 10,15%. O Nordeste, que é a região mais pobre do país, tinha taxa de analfabetismo naquele ano de 18,04%, e o Sudeste, que é a região mais rica, tinha taxa de analfabetismo de 8,17%. Por outro lado, a escolaridade média no Brasil, em 2006, era de 7,44 anos. No Sudeste está a maior escolaridade média no Brasil com 8,17 anos, e no Nordeste encontra-se a menor escolaridade média nas regiões: 6,13 anos. Ou seja, a escolaridade média desta região representava 82,39% da média brasileira, e apenas 75% da média do Sudeste.
Elaboramos um trabalho cientifico que afere a relação de causa-efeito entre educação e PIB per capita. Nesse estudo mostramos que para cada ano a mais de escolaridade média no Sudeste o PIB per capita regional cresce de R$ 6.778,53. No Nordeste um ano a mais de escolaridade incrementa o PIB médio regional de apenas R$ 3.710,96. Como a taxa de aceleração da escolaridade média no Nordeste foi maior do que a do Sudeste entre 2001 e 2006, o tempo necessário para acrescentar um ano de escolaridade média no Nordeste é de 3,02 anos e no Sudeste de 3,22 anos. Os PIB per capita atuais do Brasil, Sudeste e Nordeste são de respectivamente: R$ 11.650,10; R$ 15.467,80 e R$ 5.498,03. Nesse estudo, mostramos que no Nordeste estão os maiores índices de assimetria na apropriação da renda.
Destas evidências depreende-se que o maior esforço no Brasil deveria ser a construção e a execução de um Programa de Aceleração da Escolaridade (PAE). Um plano assim provocaria uma aceleração nas atividades econômicas, com uma melhor repartição da renda e da riqueza. Esta foi a estratégia da Coréia do Sul, Singapura e Hong Kong.

Publicação simultânea no jornal O Imparcial, de São Luís, MA